Caraminholas
   MINHAS PALMAS E MINHA REVERÊNCIA

  • Altemar Dutra, in memoriam
  • Athos Bulcão, in memoriam
  • Dulcina de Moraes, in memoriam
  • Guimarães Rosa, in memoriam
  • Hans-Joachim Koellreutter, in memoriam
  • Marcantonio Vilaça, in memoriam
  • Otávio Afonso, in memoriam
  • Paulo Emilio, in memoriam
  • Pixinguinha, in memoriam
  • Ailton Krenak
  • Anselmo Duarte (conterrâneo nosso, aqui de Salto!!!!) 
  • Benedito Ruy Barbosa
  • Bule Bule (repentista) 
  • Carlos Lyra
  • Claudia Andujar
  • Edu Lobo
  • Efigênia Ramos Rolim
  • Elza Soares
  • Emanoel Araujo
  • Eva Todor
  • Goiandira do Couto
  • João Candido Portinari
  • Johnny Alf
  • Leonardo Villar
  • Maria Bonomi
  • Marlene
  • Mercedes Sosa
  • Milton Hatoum
  • Nelson Triunfo
  • Orlando Miranda
  • Paulo Moura
  • Roberto Corrêa (violeiro) 
  • Ruy Guerra
  • Sérgio Ricardo
  • Tatiana Belinky
  • Teresa Aguiar
  • Vicente Juarimbu Salles
  • Zabé da Loca (tocadora de pífano)
  • Associação Ashaninka do Rio Amônia (Apiwtxa)
  • Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT)
  • Associação Brasileira de Imprensa (ABI)
  • Associação Comunidade Yuba
  • Centro Cultural Piollin
  • Coletivo Nacional de Cultura do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)
  • Giramundo Teatro de Bonecos
  • Instituto Baccarelli
  • Mestres da Guitarrada
  • Música no Museu
  • Quasar Cia de Dança

Essa é a relação completa dos artistas, instituições e iniciativas que foram homenageadas, no último dia 7 de outubro, com a condecoração da 14a. edição da Ordem do Mérito Cultural, solenidade acontecida no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Na platéia, como espectadores e aplaudindo os homenageados, gente como Gilberto Gil, Fernanda Montenegro, Othon Bastos, Denise Frossard, Beth Carvalho, Zezé Mota, Luiz Carlos Barreto, Antonio Fagundes, Nelson Pereira dos Santos.

Machado de Assis, Cinquentenário da Bossa Nova, 40 anos do movimento de Resistência Cultural e Tropicalismo foram temas lembrados nos discursos e nas homenagens. Ruy Guerra, orador dos homenageados, num discurso feliz lembrou que era moçambicano e que "há exatos 50 anos escolheu o Brasil como pátria e mátria cultural, como terra de seus amores, como terra de seus dizeres". E disse mais coisas interessantes: "que é também da natureza do artista a indignação, a revolta, o inconformismo, a busca incessante dos territórios da dor e da alegria, da imagem, do gesto, do som, da palavra incerta, transformadora".

 

 



Escrito por Marcos Pardim às 19h35
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   E AINDA HÁ QUEM PREFIRA FALAR DA CRISE AMERICANA

http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM536876-7823-BATEPAPO+O+GARI+QUE+CRIOU+UMA+BIBLIOTECA,00.html

Escrito por Marcos Pardim às 15h03
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   SINGULAR

diga-me. a verdade. se não é isso mesmo. que não se pode denominar de silêncio. apenas que andamos deixando em branco as páginas destes dias. que, teimosos, insistem em sucederem-se. enfileirados. dia após dia. um após o outro. incansavelmente. irrefreadamente.

ora, direis, olhando as estrelas. talvez seja o melhor mesmo a fazer. depois, quando tudo passar. e passará. haveremos de poder in-ven-tar tudo aquilo que de fato sucedeu-se. tingindo. com a cor que quisermos. as brancas páginas daqueles. destes. dos outros. de todos. de qualquer dia.



Escrito por Marcos Pardim às 19h45
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   ANTÔNIMO

no princípio era o verbo. e se, precedendo a liberação do verbo, deus tenha sido acometido de um acesso de fúria e, ensandecido, incontrolável em seu poder supremo, tenha, contrariando suas próprias advertências, libertado de seu destino divino a sua imagem e semelhança?

Escrito por Marcos Pardim às 13h51
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   DE ESMOLAS E ESPERANÇAS

Há sempre uma hora em que a ficha cai, seja lá para o que for. A das eleições municipais, em mim, ainda não havia caído. Juro, ainda não havia me dado conta de que elas estavam tão próximas. É lógico que, sonora e visualmente, já andava mesmo desconfiado de que elas estavam por aí, rondando feito alma penada. Mas, assim, reflexivamente, ainda não havia dedicado um minuto sequer de minha atenção à elas.

A emoção, mais uma vez, foi a responsável pela queda da ficha. Foi ela, a emoção, que veio botar em meu colo a urgência de passar a pensar em quem votar, em quem não votar. E esta emoção tem nome, sobrenome e endereço: Marinete Conceição de Jesus, moradora de Itamatatiua, comunidade quilombola de Alcântara, município do estado do Maranhão.

Em 130 anos de existência e descasos, Marinete é a primeira quilombola a se candidatar para concorrer a um cargo público. A reportagem diz que esta comunidade é toda ela "formada por descendentes de uma escrava doada como esmola à igreja local". Ao lê-la, fui tomado de uma imensa alegria.

Essa moça habita um local onde o Estado, salvo raríssimas exceções, dá de ombros, mostra-se de costas. E o que faz ela? Candidata-se ao cargo de vereadora, esperançosa de "não decepcionar-se com a política".

Deus te abençoe, Marinete Conceição de Jesus.

Não pelo seu desejo, mas, sobretudo, pelo que de suas entrelinhas pode-se depreender: se o medo é de decepcionar-se, significa que a decepção ainda não faz morada em ti. Este me parece ser um daqueles milagres cuja espécie é mesmo bem capaz de promover uma esperança.

*** Várias comunidades quilombolas são, hoje em dia, conveniadas como Ponto de Cultura do programa Cultura Viva do MinC. Graças a este convênio, podem ter acesso à internet grátis, possuir ilha de edição, promover e preservar suas manifestações, produzir documentários e interagirem entre si. Como operário da Cultura, fico feliz. Mais ainda por saber que está em curso, via Ministério da Cultura, programas que conveniam outros ministérios (do Trabalho e da Saúde, principalmente) na busca por melhorias destas comunidades.  

***1 - Significativo também saber que Alcântara, simbolicamente, identifica o local mais próximo do céu. Por isso, de lá, partem os foguetes do programa espacial de implantação dos satélites brasileiros.

 



Escrito por Marcos Pardim às 10h49
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   SÓ UM TEMPEROZINHO A MAIS NA RECEITA DA MARMITA DOS OPERÁRIOS

Lá vou eu botar a minha colher, nem sempre limpa (rsss..), num angu. Botemos à mesa os ingredientes: o Ponto de Cultura Balcão das Artes e Cultura Viva "Eneida Andrade Dias", da cidade paulista de Santa Fé do Sul, através de seu Grupo de Violeiros, foi uma das atrações da programação da 53a. Festa do Peão de Barretos, apresentando-se no último sábado, 30.
 
Beto Alcalá, secretário de Cultura da cidade, e a representação paulista do MinC jogaram na rede a notícia. Dois de nossos mais bravos parceiros na guerra pelo implementação de políticas públicas culturais: Robson Sampaio (Campinas) e Binho Perinotto (Rio Claro), manifestaram-se, cada um à sua maneira, contrários à esta participação do Ponto de Cultura em tal tipo de evento.
 
Embora tenha imenso respeito pelos dois manifestantes, ambos representantes dignos da comissão paulista de Pontos de Cultura, discordo deles e solidarizo-me com o parceiro lá de Santa Fé do Sul.
 
Friso que nunca fui a nenhuma das 53 edições da famosa festa de Barretos, e nem a nenhuma outra relacionada a isto em cidade alguma, incluindo aí Salto, onde vivo, e Itu, onde também trabalho. Questão de gosto pessoal.
 
Mas é preciso reconhecer que a luta dos movimentos de culturas populares passa necessariamente pela conquista e pela sedução de muitas outras mentes e corações, que não sejam sempre os de poucos e abnegados que, árdua e cotidianamente, fazem das tripas, corações, pela sua sobrevivência.
 
A festa de Barretos, goste-se ou não dela, atrai multidões. O porquê disso talvez seja uma boa pauta para as discussões de agentes culturais, inclusive nós, coordenadores de ações culturais dos Pontos de Cultura espalhados pelo país. O Grupo de Violeiros de Santa Fé do Sul, cujo trabalho certamente deve merecer um reconhecimento (até o MinC, via programa Cultura Viva, assim entendeu ao conceder-lhe habilitação), não poderia mesmo, em meu entender, perder uma oportunidade destas para mostrar o seu precioso trabalho para um público que, em sua grande maioria, muito provavelmente, deve ter sido formado por espectadores que pouco ou nada têm de interesse pela batalha cultural do Ponto. Isso também entendo ser tarefa nossa.
 
Fingir que no bordel da existência possa haver "virgens" intuo e receio que não seja uma boa atitude de política cultural. Uma coisa é tomar a iniciativa de promover e/ou patrocinar tais eventos. Outra, muito diferente, é saber utilizá-los, tentando seduzir, pelo bem cultural que apresentamos, quem deles participa, apenas como público.
 
Levada ao extremo, essa visão manifesta pelos labuteiros amigos pode nos induzir a não aceitarmos verba nem participação em quase nada. Via de regra, empresa alguma, pública ou privada, está a salvo de um ou outro deslize moral, ético ou social, seja ele pequeno ou grande.
 
Talvez, por isso mesmo, o tripé do valioso programa Cultura Viva do MinC seja cultura, educação e cidadania. E encoraja o protagonismo, o empoderamento e a autonomia. Quer utopia melhor?  Lutemos, pois, pela Cultura. Sem cairmos na visão simplista e romântica de que somos anjos imaculados, só porque a nós nos foi dado o destino dos operários da cultura.
 
Salve, Betos, Robsons e Binhos... Salve, Mestre Salustiano, que morreu ontem em Hellcife, como diz um outro bravo: Xico Sá. Salve, a Cultura. E mais não digo, porque em boca fechada...


Escrito por Marcos Pardim às 19h16
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   ESPORTE: DO AMOR E DA AMARGURA

Para começo de conversa, adoro esporte.

Ao longo destas quatro décadas e meia de muitos e variados erros, pouquíssimos acertos, tantas mais dúvidas do que certezas, encontrei nele quase sempre um bom ancoradouro para minhas emoções, estas mesmas que nos fazem gotejar lágrimas pelos cantos dos olhos.

Passei minha infância toda e adolescência iludidamente convencido de que seria um jogador de futebol profissional. Não fui. Mais por culpa minha mesmo do que por barreiras intransponíveis ou rasteiras e sacanagens da vida ou de quem quer que seja ou tenha sido. Hoje, acompanho meu filho pelas quadras de futsal ou pelos campos de futebol, ele atrás deste mesmo sonho que um dia eu tive. Onde dará este sonho ou esta ilusão, só o senhor do tempo em suas orações é quem dirá. Ao menos, anseio e espero, que sua realização ou não não faça de meu pequeno Pedro um alguém ressentido ou amargurado.

Sim, porque eu ando. Se não ressentido, graças a Deus, infelizmente amargurado. Estas Olimpíadas chinesas, recém terminadas, vieram me trazer a certeza deste sentimento ruim. Primeiro pela própria escolha da China como país sede. Que os chineses sejam felizes, desejo. Verdadeiramente e de todo o coração. Mas daí a acreditar que a força de sua pujança e da avalanche de sua atual economia são bons exemplos a serem seguidos, vai uma muralha chinesa de distância.

Há quem os bajule, decerto. E se renda à força da grana que ergue e destrói coisas belas, no dizer baiano de Caetano. Poderosos, esses chineses de nossos tempos. Mas a que preço! Sobretudo, ao preço do peso pesadíssimo do atentado à liberdade, este nosso mais precioso bem. Mas deixemos os chineses de lado.

Foi bonita a festa, pá, fiquei contente, posso até cantarolar puxando um sotaque português a canção de Francisco. Mas não vi. Nem a de abertura nem a de encerramento. Mas acredito mesmo que tenha sido linda. Espetáculos são bons exemplos do que de belo a grana pode erguer. E por falar em grana, retomo o fio da meada e volto ao tema que pretendia fosse principal nesses rabiscos: o site Contas Abertas (http://contas abertas.uol.com.br/noticias/detalhes_noticias.asp?.auto=2358) fez um cálculo e chegou ao espantoso dado de que cada medalha conquistada pelos bravos atletas brasileiros custou 50 milhões para os nossos cheios cofres públicos.

Maurrem Maggi me emocionou. As meninas do vôlei, mais ainda. O nadador César Cielo, nascido aqui na vizinha Santa Bárbara do Oeste, me foi uma agradável surpresa. A derrota do futebol feminino me doeu. A do futebol masculino sequer me causou algum contratempo emocional, outra coisa não esperava mesmo deste esporte cada vez mais mesquinho, na contundente e certeira análise de Diego Maradona. Gosto, muito, de esporte. E muito também torço por atletas. Mas fica cada vez mais difícil torcer pelo meu país.

Este país que investe milhões em atletas e esportes de ponta (sempre em Olimpíadas ou Jogos Panamericanos) e é incapaz de implantar uma política pública que faça do esporte um eficiente caminho de inclusão social. Enquanto isso...

Meninos e meninas, cada vez mais, saltam, pulam, correm, mergulham no desolador mundo do descaso, da desesperança e, pior, do crime, este, sim, organizado, organizadíssimo.

Como o estado não age, proliferam escolinhas esportivas particulares, em sua esmagadora maioria meros mercadores e negociantes de uma mercadoria valiosíssima: os sonhos, sobretudo os de uma vida melhor e mais digna. Nada contra eles, estão jogando o jogo. Tudo a favor das crianças e jovens talentosos que se vêm refém desse processo, todo ele lamentável tanto na esfera pública como na esfera privada.

Um dia, quem sabe, a sociedade acorde para esse desastre social. Por ora, minhas lágrimas pelos atletas que vencem. Mas também para a, lamentavelmente, maioria deles que ficam pelo caminho, derrotados pela burrice, pela ganância e pela desfaçatez.



Escrito por Marcos Pardim às 11h32
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   AMIGOS, DISCOS E LIVROS *

"Só você para me tirar de casa, da companhia dos meus discos e livros, numa noite fria e chuvosa de inverno, e de sábado" - disse a um amigo que, no início desta semana, gentilmente havia me convidado e intimado a participar de um sarau lítero musical que apresentaria no Espaço Cultural Barros Júnior. Ele prontamente me rebateu: "não vem com essa não; têm outras coisas que te fazem enfrentar o frio e a chuva". Retruquei dizendo-lhe que estava me referindo às coisas pronunciáveis e politicamente corretas e acabamos rindo, como sempre acontece nos nossos, cada vez mais, esparsos encontros.

Por um bom tempo tentei fazer do espaço no qual desempenhava a minha atividade profissional, um canto em que se pudesse reunir pessoas interessadas em cultura nas mais diversas formas de artes como literatura, pintura, cinema e teatro. Um dia, nos anos 80, chegou até esse local um jovem sonhador, de cabelos longos, barba, mochila e sandálias de couro, interessado em participar da vida cultural da cidade. Ouvi as suas idéias e a partir desse encontro passamos a ser parceiros em projetos e eventos realizados em Salto. Além de parceiros, uma nova amizade foi se solidificando.

Chegou a diretor do Teatro Verdi e, durante a sua gestão, a cidade experimentou uma efervescência cultural que há muito não se tinha conhecimento.

Os anos se passaram e ele continuou a sua trajetória de sucesso como agente cultural pela região, enquanto eu acabava sendo tragado e vencido em meus sonhos e ideais. Dessa parceria, iniciada com muito sonho e ilusão, restou a única coisa imprescindível nos relacionamentos humanos: a amizade. Além de amigo o considero quase meu compadre e irmão, encantado que sou pela sua companheira e pelos seus adoráveis filhos.

Em virtude disso, na noite do último sábado tive diversos motivos para enfrentar o frio e a chuva. Não apenas pela oportunidade de rever amigos de infância, mas também por testemunhar um delicado e pungente espetáculo, despretensioso e bastante intimista, do reencontro entre dois amigos e colegas que, no desempenho de suas funções de produtores culturais, trilham o mesmo sonho de ver a arte sufocando a mediocridade presente em nossos dias. Revisitando mais de duas décadas de amizade, o amigo Pardim ao lado de Marcelo Roverso, entrou em cena às 20h45, num ambiente despojado que nos remeteu a um descolado e aconchegante barzinho dos anos 80. Entre belas canções e trechos literários a dupla presenteou a platéia com momentos da mais rara sensibilidade de composições e melodias. Sob as bênçãos de mestres das letras como Caio Fernando Abreu, Hilda Hilst e Clarice Lispector mesclada com a apaixonante sonoridade de Chico Buarque, Toquinho, Lenine, Belchior e Tom Zé, entre outros, Pardim e Roverso deixaram a sua mensagem arraigada de poesia e ternura dos sonhos e desalentos, do mar e do luar, da vida possível e imaginária e de amores impossíveis vividos por toda uma geração. Por se tratar de um espetáculo com características estritamente intimista e de cumplicidade entre dois velhos amigos, a apresentação pecou pela ausência de diálogos entre eles. Aliás, pela descontração sugerida pelo sarau ele surtiria maior efeito se a dupla ao invés do palco, se posicionasse por entre a platéia.

Às 22h15, ao descer o pano imaginário do tênue e sensível sarau que havia acabado de participar, me lembrei da bela canção de Belchior que praticamente abriu o espetáculo, com um refrão que diz mais ou menos assim: "eu quero que esse canto torto, feito faca, corte a carne de vocês". Voltei para casa, como se atingido por um estilete pontiagudo do mais puro lirismo e encantamento.

*** Crítica de Duarte Rodrigues publicada no Jornal Taperá, Caderno 2, pág. 9, edição de 16/08/08, a respeito do show 25 ANOS DE ESTRADAS, CANÇÕES E RABISCOS que tem mais duas apresentações agendadas para este mês: dia 24 no Teatro Montécnica, em Salto, e dia 30 no Ponto de Cultura FASAM, em Itu.

 



Escrito por Marcos Pardim às 20h16
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   ATENÇÃO, ATENÇÃO... MUITO OBRIGADO PELA ATENÇÃO

No faroeste caboclo varzeano nosso de cada dia, a próxima atração é um duelo que acontecerá aqui - nesta cidade de Salto Lake City, encravada no velho oeste poeirento paulista - em mais dois dias, e será protagonizado pelos matadores de aluguel, a saber: este que vos chateia e seu amigo Marcelo Roverso. Tal duelo terá como cenário uma mesa de bar, duas cadeiras e dois copos e terá como endereço o Teatro Montécnica (Shopping Center Salto, piso 2, sala 2). De lá, todos deverão sobreviver, pois as balas serão de festim e as mentiras@lorotas@cascatas é que são os personagens principais deste seriado que faz jus aos Bat Mastersons e Ciscos Kids da vida. E por não ter mais nada a dizer, e se você não tiver mais nada, absolutamente mais nada a fazer em algum destes dois dias, 16 (20h30) e 24 (20h) de agosto, apareça. A senha que dá direito a acompanhar quem pior atira, qual de nós é o mais cego em meio ao tiroteio, custa 10 reais e 5 reais (1/2 entrada). 25 ANOS DE ESTRADAS, CANÇÕES E RABISCOS é o nome fantasia deste duelo em forma de encontro poético-musical. Informamos que as mentiras@lorotas@cascatas serão computadas em nosso crédito. Todo o resto, deverá ser debitado em sua conta e risco. Salve a existência, os amigos e a amizade. Espero todo mundo lá.

Escrito por Marcos Pardim às 07h45
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   CENÁRIO

Não há escombros visíveis. Fendas não se abriram. Trovões não se ouvem. Relâmpagos não riscam os céus. Chuvas não alagam ruas. Rios não transbordam margens. Sequer os dias abandonaram o destino de passar. As horas de correr. O dia amanheceu. Entardeceu. A noite chegou. Tudo igual. Tudo. Todos. Sempre e costumeiramente tão igual. Apenas ele, não. As fendas. Os trovões. Os relâmpagos. A tempestade. A imutabilidade das horas. Dos dias. Do tempo. Só ele viu. Só ele sentiu. Os escombros, todos. Existem. Habitam nele.

*** da série palavras um dia agrupadas e esquecidas no desmaio do tempo.



Escrito por Marcos Pardim às 09h52
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   NOTA DE DESAGRAVO

A Revista Veja desta semana, em sua página 72, com o título Fim do Carnaval, publica uma matéria (não assinada) em que presta um imenso desserviço à cultura.

A pretexto de noticiar a renúncia de Gilberto Gil do MinC (Ministério da Cultura), acabou optando por "fulanizar", ironizando o ex-ministro e tratando de maneira desrespeitosa e arrogante aquilo que deveria ser motivo jornalístico: a questão da política cultural e sua importância na construção de uma nação, seja ela qual for.

Veja é sabedora disso, certamente.

Sou um leitor. Gosto muito de ler. E Veja é uma de minhas costumeiras leituras. Reconheço nela a sua grandiosidade e, nem precisaria dizer, a sua imensa influência. E exatamente isso, sua grandiosidade e sua influência, deveria lhe bastar como motivo para ser (ou ao menos tentar ser) mais responsável. Mas o seu poder e sua soberba, por vezes, parecem falar mais alto.

A notícia da troca de um Ministro da Cultura, seja ele quem for, se não por nada, pela importância do ministério (ao menos que Veja não considere cultura como algo essencial), deveria ser tratada de maneira mais séria. Mas Veja preferiu fazer gracejos e ironias com o ex-ministro e a desrespeitar grosseiramente algumas manifestações e tradições culturais. No caso, a capoeira ("pernada a tres por quatro", no dizer da revista) e a culinária mineira, que nada tinha a ver e acabou, coitada, entrando na história .

Conheço vários que, por essas atitudes e outras de Veja, cancelam suas assinaturas da revista. Outros, que nutrem verdadeiro ódio por ela. E não fazem questão alguma de esconder isso. Antes, ao contrário. Alguns, inclusive, incitam a que outros assinantes assim também ajam. Não chego, nem chegaria a tanto. Pelo simples motivo de que nunca li Veja (e olha que faz tempo que a leio) como quem lê uma Bíblia. Detesto estes climas de Fla-Flus, esquerda e direita, PT X PSDB. No mais das vezes, ambos os lados pecam por absolutismo. Desconjuro, sai de retro, satanás.

Mas é inegável que Veja tem um ranço de prepotência e de arrogância. A ponto de fazer chacota com a Cultura. Melhor teria feito, se criticasse, sim, severamente se fosse o caso, o ministro e sua gestão. Mas deveria ter se baseado em análises de programas e de projetos. Nunca, jamais, li nas páginas de Veja uma linha que fosse a respeito de Cultura Viva, Pontos de Cultura, Escola Viva, Ações Griôs, Viva Leitura e outros programas levados pelo ministério. Nem que fosse para desancá-los, o que seria uma injustiça na minha opinião. Mas seria, ao menos, jornalismo mais próximo da seriedade.

Talvez seja ingenuidade de minha parte, mas acredito que a questão cultural mereceria um melhor tratamento jornalístico de Veja. A revista completou este ano 40 anos. É pouco, muito pouco, perto da Cultura e de suas manifestações, gostemos ou não pessoalmente delas, inclusive aquela ironizada "pernada a tres por quatro", que estão aí, a bem mais, muito mais tempo, nos alicerçando na árdua luta pela existência. Veja deveria se lembrar disso, nem que fosse só de vez em quando.

Preferiu ser rasa, arrogante e irônica. Pra mim, leitor assíduo, conseguiu mesmo foi ser absolutamente sem graça. Pra me fazer rir, será preciso melhorar a verve humorística de seus redatores anônimos (é bom lembrar, a matéria não foi assinada).

Como anônimo e desimportante operário da cultura, apenas achei triste e lamentável. 



Escrito por Marcos Pardim às 21h42
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   DEPOIS AINDA DIZEM QUE SEDUZIR NÃO É UMA ARTE

lei seca à parte, e que me perdoem os defensores dela, eu incluso, vezenquando só mesmo o cenário de uma mesa de bar, quando dois amigos, desarmados, mas jamais desalmados, trocam confidências e, sob o leve desatino da embriaguez de duas ou três inofensivas doses a mais, somente a língua mais leve, solta, corações umedecidos, é que pode propiciar o dizer ou o ouvir coisas macias ou felpudas, mas invariavelmente pérolas tão tristes quanto tão belas

exemplo recente, a confissão da declaração de amor mais linda, de um homem para uma mulher, que os ouvidos deste que vos sopra o milagre, mas omite o santo, já ouviu nos últimos tempos

o santo, digo: o amigo, já naquelas condições que fazem jus às descrições citadas no primeiro páragrafo desta composição, aquela fase em que o sujeito chora as pitangas deixadas no pé a apodrecer, o irremediável leite derramado de erros passados, àquela hora em que um guardanapo lhe cai bem melhor que um lenço, e não há documento algum capaz de comprovar existência nenhuma, me conta que, ao conhecer a sua atual mulher, tão amada e sofrida amante, ouviu dela o relato de amores tão doloridos que lhe fizeram sussurar aos ouvidos: "queria, meu amor, saber amar, saber fazer amor tão bem como você merece, não sei, mas juro que ainda haverei de aprender, só pra te fazer feliz"

tal qual um epílogo, podem descer o pano, rápido, gritem bravo, só não peçam o bis, pois que meus olhos, invejosos dos corações, ainda estarão umedecidos



Escrito por Marcos Pardim às 14h29
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   25 DE JULHO É O DIA, 20 É A HORA, SINTAM-SE CONVIDADOS

Embora motes e vontade não me faltem, tenho andado obrigatoriamente alheio ao mundo virtual, tanto na manutenção dos garranchos daqui quanto na leitura prazerosa e muitas vezes indispensável das letras dos blogs que gosto de visitar.

Algumas coisas têm contribuido para este meu alheamento compulsório, dentre elas a roteirização, produção e ensaios do sarau lítero-musical 25 ANOS DE ESTRADAS, CANÇÕES E RABISCOS (ver post de 24/06/08). A bem da verdade, sarau lítero-musical é antes um metido eufemismo para um brincadeira, uma deliciosa brincadeira, um troço qualquer, cujo roteiro remete a um outro tempo, recente, mas inexoravelmente um outro tempo. Uma forma que, dois amigos, encontramos para brindar coisas cotidianas e banais como a amizade e o reencontro.

Dois jovens, recém saídos da adolescência, se encontram em uma cidade estranha a ambos: Marília, calouros de cursos de Humanas na UNESP (Universidade Estadual Paulista). Como necessária contextualização, é preciso lembrar que havia no país, que vivia então sob o peso das mãos e dos coturnos do militarismo, uma aura de liberdade possível. O Brasil, entusiasticamente, inebriava-se no clima das Diretas Já, movimento que culminou com a restauração da democracia, este "conceitozinho desimportante e básico" que nos permite votar e escolhermos a quem queremos a nos governar.

A luta por essa liberdade impregnava a sociedade de uma espécie de catarse que nos impulsionava a sonhar com uma felicidade que prometia ser coletiva, e não somente um luxo individual e intransferível. Os jovens da época, inclusa a dupla dinâmica composta por este que vos torra a paciência e Marcelo Roverso, encontravam nas Artes, na filosofia, na sociologia e na psicologia, a companhia diária e ideal para se fazerem protagonistas daquele momento histórico.

Nas Artes, era comum música e literatura, sobretudo poesia, se unirem para dar vez e voz aos sonhos e utopias de meninos e meninas que, com seus cabelos longos, batas indianas, sandálias, bolsas e chinelas de couro, acreditávamos, pretensiosos, iriamos mudar o mundo, obviamente para melhor. Hoje, 25 anos & quilos depois, continuamos jovens (ou ao menos temos a imperativa vontade de que assim nos vejam), mas certamente não fomos capazes nem de mudar, muito menos de melhorar o mundo. Talvez, quando muito, tenhamos conseguido mudar e melhorar a nós mesmos, o que haverá de não ter sido pouca coisa.

Eu, rabiscador e ajuntador de letras, e o produtor, poeta, blueseiro e amigo Marcelo Roverso, estaremos brincando de contadores de história. De uma história que começou há um quarto de século atrás e veio sendo construída, numa espécie de mosaico sem fim, onde se vai juntando os cacos espalhados pelas estradas, canções e rabiscos. Uma história que só quer mesmo, despretensiosamente repita-se, celebrar esta coisa simples e comezinha que é a amizade, que acredito será companheira da humanidade enquanto a nós for possível o milagre da existência.

P.S. - Nesta mesma noite, a primeira atração ficará por conta de uma performance teatral da atriz Jaqueline Durans (da cidade paulista de Limeira). Em seguida, acontecerá o sarau descrito acima. Ambas as programações fazem parte do Festival de Artes de Inverno do TEMEC (Teatro e Escola de Música Eleazar de Carvalho), coordenado por Marcelo Roverso. O teatro fica à rua Cuiabá, 61, Bairro Brasil, Itu, (11)4022-0206 e os ingressos custam a exorbitância de R$10,00 ("deiz real").

 



Escrito por Marcos Pardim às 20h29
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   PALAVRAS QUE, COMO ÁGUAS, VAZAM

São todos estes os teus olhos, para além, muito além, dos dois que me fitam, par de antenas que ora me tateiam, ora me despem, e o que sei eu de você, você de mim?

Apenas que o verbo que nos roça, atiça, arrepia, transpira, no hoje que a toda hora se acaba, no amanhã que, embora custe a chegar, começa e termina no reencontro, e o que sei eu, que sabe você?, sobre o por que amar no princípio, se não foi, deveria ter sido.

Me decifre ou me devore. Me peque ou me perdoe. Me satanize ou me santifique. Na pureza de um limão ou na sedução de uma maçã, ou pode até ser na alegria ou na tristeza, na saúde ou na doença, para todo o sempre, amém, sobretudo aquele para sempre que nos mostra a face do abandono logo ali, se não na próxima, na outra curva do rio, riacho, lago, poça, gota, pingo, lágrima...

Mas faça de mim, aquilo que só você pode fazer, algo melhor do que eu mesmo não seria, por não saber ser, sem você, meu verbo, meu princípio, meio e fim, meu gênesis: Amor.



Escrito por Marcos Pardim às 22h49
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   lágrimas

quereria te dizer sobre todas as preces que deveria ter rezado, e não orei, sobre todas as orações que fiz, e não deveria ter orado, pois foram frutos antes do desespero e sensação de abandono que da fé, aquela que dizem remove montanhas, mas que em mim sequer é capaz de mover os galhos secos e retorcidos desta árvore que, no paraíso, deve ser frondosa, e o que hei de fazer se do paraíso me traficam mais a consolação, aquela que, se não me redime, ao menos me comove e, comovido estando, reconheço em mim o sentimento que necessito, devo e preciso ter, e não sei se tenho, por você, meu amor, minha dor inevitável, por ser a única e derradeira maneira de fazer piscar a luz no fim do túnel, por onde trafega o trem mais desgovernado que conheço, aquele que me carrega ladeira abaixo, morro acima, transportando o milagre que tanto me dá, e tanto me tira, que é viver, eu que sei, aprendi, na marra, no murro, que por vezes é a carraspana, a embriaguez, o porre e não a porra, o colo e não a foda que se faz porta-voz da macheza, que te faz homem em certas horas, sobretudo as nuas, luas que precisam iluminar ruas, calçadas, esquinas, caminhos, se é que me entendes, por favor me entenda. 

Escrito por Marcos Pardim às 13h59
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