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FILOSOFIA ORDINARIAMENTE BARATA
felicidade não é - ou não deveria ser - um bem em si. ou em nós. felicidade é possibilidade. intenção. busca. procura. motivo. força-motriz. felicidade é inalcansável, muito embora avassaladoramente necessária. imprescindível. felicidade não existe para o aqui. para o agora. e não há nada de triste nisso. *** da série palavras um dia agrupadas e esquecidas no desmaio do tempo (e para não dizer que não falei do tempo, ontem, dia 18/11, essa quitanda virtual completou 4 anos de portas abertas).
Escrito por Marcos Pardim às 09h38
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HABEMUS PONTO(s)
Um dia, faz bem pouco tempo, em uma reunião da ASLe (Academia Saltense de Letras), a diretora de cultura, Vânia Barcella, fazia-se presente. Entremeado a um comentário que fazia aos outros membros, sobre Conselhos Municipais de Cultura, perguntei a ela se havia (ou não) na secretaria da Cultura a ideia de criação de um deles. Ela me respondeu que não sabia existir, mas acreditava que não. Carolina Padreca, a mais jovem das ocupantes de uma cadeira da Academia, olhou-nos e disse: “Até que enfim, alguém pra tocar nesse assunto. Demorou...” Alguns dias depois, tomei a iniciativa de telefonar para Carolina. Propus à ela a ideia de um encontro de artistas, arteiros, fazedores, sabedores e consumidores de Cultura, para tratarmos de alguns assuntos, dentre eles um possível movimento para criação do Conselho Municipal de Cultura. Carolina topou. Agendamos uma data e local, e dividimos (desigualmente, é bom dizer, pois ela ficou com uma lista maior do que a minha) a tarefa de convidar algumas poucas pessoas, em princípio. Daí, para a criação do Fórum Permanente de Cultura foi um pulo. Tudo muito espantosa e gratificantemente rápido. Ao grupo, originariamente restrito, foram chegando novos atores, novos personagens, novas vozes, novas ideias, novos sonhos, novas esperanças - e, para não haver dúvidas, velhos problemas. Tem nada, não. Protagonismo e autonomia só se dão mesmo com empoderamento. E a vida segue seu rumo, alheia a nós. Se bobearmos, outros se empoderam. E nem sempre com os princípios e valores humanos do protagonismo e da autonomia. Viver é perigoso, já disse um dia Guimarães Rosa. A partir do Fórum, foi possível, sem perder o foco das dificuldades, tratar de alguns assuntos imprescindíveis para uma boa gestão de política pública cultural: o edital aberto para novos Pontos de Cultura; a realização da I Conferência Municipal de Cultura, o movimento pela criação do Conselho Municipal de Cultura (cujo lançamento oficial se deu na Conferência, e lugar melhor e mais emblemático não poderia haver), etc. E os frutos desta árvore ainda tão pequena de nossa luta eterna já começaram a aparecer. Nosso Fórum tem motivo hoje para celebrar, comemorar, brindar: habemus Pontos. Hoje, dia 16 de novembro de 2009, Salto foi contemplada com a habilitação de três Pontos de Cultura. Os projetos Ponto de Cultura Corporação Musical Barros Júnior, Anselminhos, Pagadores de Promessa e Corpo de Baile Cidade de Salto, entre mais de 1200 de todo o Estado, estão na lista dos 300 escolhidos pela comissão julgadora e se juntam aos já 175 outros existentes, para fazer parte da Rede Estadual dos Pontos de Cultura. Para que o motivo de nos alegrarmos seja ainda mais contundente e regionalizado, a FASAM – Ponto de Cultura Para Todos os Especiais, de Itu, ganhou também o edital de Pontões de Cultura, e a vizinha cidade passou a contar com mais um Ponto de Cultura: a UNEI (União Negra Ituana), cujo trabalho é mesmo elogiável e seus representantes, pessoas valiosas, além do que Indaiatuba também teve o projeto Bolha de Sabão contemplado e prevê para 2010 a implementação de sua Rede de Pontos de Cultura, formada por mais cinco Pontos. Uma conquista e tanto, decerto. E que deve mesmo ser celebrada, sem no entanto perdermos de vista que, em verdade, ela é a senha que dá acesso para que Salto e região entremos definitivamente no conceito do programa Cultura Viva. Um programa exemplar de política pública cultural. Ele existe somente há cinco anos, mas já apresenta resultados extraordinários. O livro do secretário de Cidadania Cultural, Célio Turino, chamado Pontos de Cultura – O Brasil de Baixo pra Cima, lançado oficialmente no último dia 11/11, faz-se leitura obrigatória para quem se pretende protagonista cultural. A Cultura, já cantou Jorge Mautner, é a melhor e mais generosa maneira de se praticar a desobediência civil. Habemus Pontos, saltenses. Como analogia ao título, imaginei as chaminés de algumas indústrias saltenses dos anos 50/60/70 soltando fumaças, em uma espécie de anunciação vaticana. Não há mais este tempo. Sequer há a maioria destas fábricas, conseqüentemente as suas chaminés. Não tem importância. A gente inventa. Nós somos mesmo um povo culturalmente bem capaz de inventar. O que quisermos – até um país diferente, quiçá melhor. Para isso, antes, é preciso um bairro diferente, uma cidade diferente, um Estado diferente. Antes, ainda, um Eu diferente. Quiçá, melhores. @FIM, Corporação Musical Barros Júnior e Corpo de Baile, entidades proponentes dos projetos premiados, devem se congraçar ao outro projeto saltense que também concorreu: Festival de Música Amiga FM. Não é, certamente, um edital que transforma qualquer entidade ou programa em um Ponto de Cultura. Somos nós mesmos. Nossas escolhas e nossas ações. Vocês da Amiga FM, batam no peito e digam: somos, sim, Ponto de Cultura. Repito: habemus Pontos. Agora, que venham Conselho Municipal de Cultura, Fundo Municipal de Cultura, democratização de acesso e de fomento ao Fundo e, quem sabe um dia Salto, quem sabe um dia, a nossa Rede Municipal de Pontos de Cultura e a Escola de Cultura, Artes e Cidadania Anselmo Duarte. A fumaça imaginária de nossa chaminé inexistente anuncia a boa nova: habemus Pontos.
Escrito por Marcos Pardim às 17h59
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CONTANDO HISTÓRIA (CONT. DO POST ANTERIOR)
No local e hora combinados, cheguei. Anselmo Duarte já estava e antes mesmo que eu comentasse qualquer coisa sobre isso, foi logo sugerindo que a entrevista mudasse para outro local: um bar, para onde nos dirigimos. Lá, por cerca de quatro horas, conversamos. E bebemos, também. Não muito, mas o suficiente para manter a conversa num nível mais informal. Eu era editor de uma revista mensal de Cultura. Sob minha responsabilidade tinha um Ensaio na última página e o Perfil, o qual preenchia as duas páginas centrais. O daquele mês era com o cineasta, que havia algum tempo estava de volta à cidade natal. E Anselmo falou. Muito. Contou coisas, casos, "causos". Histórias e estórias. Enfim, foi Anselmo Duarte em seu melhor personagem de si mesmo. A cidade acabara de lhe conceder mais uma homenagem, inaugurando um Cineclube e dando a ele o seu nome. Discorreu sobre isso também. Elogiou algumas coisas e criticou outras. Foi duro, sobretudo, com relação a algumas falhas que julgara terem sido cometidas quanto à algumas conquistas para o Cineclube por meio do Consulado do Canadá. Isso o havia deixado muito chateado. Como o Cineclube em si não era o tema da entrevista, resolvi não me aprofundar nisso. Em determinados momentos, tal o grau de informalidade, perguntei a Anselmo se aquilo que dizia era uma conversa em off ou se poderia usar na matéria. Pouquíssimas coisas recomendou ser necessário mantê-las entre nós, como conversas de bar. Ao editar a matéria, por óbvia carência de espaço, tal a profusão do material coletado, optei por deixar de fora algumas das críticas, quer fossem elas mais específicas à Cultura ou à vida em geral. Alguns dias após a revista ter saído, por intermédio de um amigo, recebi uma carta de Anselmo Duarte. Uma carta extensa e escrita de próprio punho. Nela, Anselmo fazia reparos à matéria. Dizia que eu havia cometido algumas inverdades, escrito coisas que ele não falara ou, ao menos, teria sido mal interpretado. Em alguns trechos, em verdade, ele era bastante duro nas considerações, dizendo que não esperava aquilo de mim. Fiquei sem saber se a carta era particular ou se endereçada à revista. Procurei por Anselmo. Ele riu muito. Desconversou, contou mais histórias e me disse para não dar importância à carta. Ela era apenas uma espécie de tentativa de amenizar um pouco o mal-estar causado com algumas de suas críticas, notadamente na prefeitura e na Secretaria da Cultura. Retruquei, dizendo, em minha defesa, que não havia feito aquilo que a carta dizia eu ter feito - e ele sabia disso muito bem. Esquece, releva, respondeu-me Anselmo. E me levou à uma pastelaria, cujos pastéis ele muito apreciava. E eram mesmo muito bons. Dias depois, fiquei sabendo que as critícas de Anselmo não ficaram restritas à carta. Novamente o procurei. E fiz ver a ele a importância de torná-la pública, para meu próprio bem e da revista para a qual trabalhava. Anselmo discordou. Pediu que eu não a publicasse. Insistiu que, por vezes, alguns "jogos de cena" são necessários, mas que não passavam de problemas menores. Discordei. Publiquei a carta, na íntegra. Embaixo, um P.S. esclarecia que, muito embora, o entrevistado fosse merecedor de toda a minha reverência, minha admiração e meu respeito, o editor mantinha, por convicção e exercício ético da profissão, tudo aquilo escrito anteriormente. Nenhuma ilação fiz, em meu P.S., ao que ele havia me dito posteriormente ao envio da carta. Se assim o fizesse, imaginei, aí sim seria leviano ou mau profisssional. Por algum tempo, Anselmo me evitou nas poucas vezes em que nos encontramos. Aqui ou ali ouvia um comentário ou outro, que diziam ele havia feito. Um dia, alguns anos depois, em um churrasco na casa de um amigo em comum, sentado em uma mesa que não a dele, recebi o recado de que queria falar comigo. Senta aí, ele me disse. E ao casal que nos recepcionava, e que sabiam do ocorrido, ele disse: ele estava certo, agiu como deveria mesmo ter agido. Apenas sorri, e perguntei a ele sobre um problema de saúde que soubera ter tido. Não sei se ele não me ouviu, ou se fingiu não ter ouvido. Contou-me mais uma de suas estórias. E depois outra...
Escrito por Marcos Pardim às 21h20
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CONTANDO HISTÓRIA (EM MEMÓRIA A UM GRANDE CONTADOR DELAS)
O enredo é por demais conhecido: morre uma pessoa famosa, e o que mais se ouve ou se lê são depoimentos que exaltam as tantas e valiosas virtudes demonstradas em vida – muitas delas, sejamos sinceros e honestos, em verdade, inventadas ou superdimensionadas. Tive, e tenho, poucos ídolos. Todos falíveis e dados a um ou outro deslize, graças a Deus. A respeito disso, gosto de me lembrar de uma passagem contada por um amigo já falecido: o escritor Caio Fernando Abreu. Em final dos anos 1980, começo dos 1990, o cineasta Guilherme de Almeida Prado acalentou o projeto de filmar o romance Onde Andará Dulce Veiga? Regina Duarte havia sido convidada a viver na telona a personagem que dá título à obra de Caio F. Abreu. O escritor, declaradamente fã de Caetano Veloso, sugeriu convidá-lo a compor a trilha sonora do filme. Caetano Veloso fazia temporada de shows. Escritor, cineasta e atriz foram assisti-lo e se dirigiram ao camarim do cantor, a pretexto de efetivar o convite. Caio me contaria depois o tamanho de sua decepção, de seu desencanto e sua tristeza com o ídolo – para negar-se ao convite, Caetano fora desrespeitoso e grosseiro. Decerto que a desilusão não era pela negativa em si, mas pela forma como ela havia se dado. “Ídolos, melhor não tê-los. Em tendo-os, melhor não conhecê-los”, me citaria Caio. O que falei ao amigo então, ainda continua valendo como regra de minha conduta. Não me incomodo com as mazelas humanas de meus poucos “mestres” – que é como prefiro denominar meus ídolos. Aliás, isso me faz admirá-los ainda mais. Eu os vejo humanos, erráticos, capazes de mesquinharias e injustiças (quer sejam por gestos ou atitudes), mas ainda assim capazes de criarem coisas tão geniais e imprescindíveis. Não creio na “santidade” humana nem na perfeição – que imagino deva ser, assim como a sabedoria ou a felicidade, algo a ser buscado, sempre, mas sem perder a perspectiva e a certeza de que inatingíveis. Mais uma vez, pensei nestas coisas ontem, por conta da morte de Anselmo Duarte, o mais ilustre dos saltenses. Estive em parte do cerimonial que antecedeu ao seu sepultamento, cerimonial este que se deu no saguão da Sala Palma de Ouro, teatro que faz parte do recém inaugurado complexo do Centro de Educação e Cultura de Salto. Tive a oportunidade de viver, quase à mesma época deste envolvendo meu amigo Caio, um episódio com Anselmo Duarte que me serve ainda mais para contextualizar esta minha maneira de enxergar ídolos e famosos. Em um outro post, para não me alongar neste, contarei o ocorrido. Com a única intenção de homenagem e de respeito a este saltense, nascido em 1920 numa Salto não mais do que um pequeno vilarejo, que foi capaz de se tornar o único brasileiro a ganhar o prêmio maior do Festival de Cannes, na França: a Palma de Ouro. E isto com uma obra genuinamente brasileira: O Pagador de Promessas, adaptação cinematográfica da dramaturgia de Dias Gomes.
Escrito por Marcos Pardim às 11h41
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DE IMAGENS E DE FATOS
Há uma lógica infalível na inevitabilidade. Por conta disso, os fatos se sucedem. E nos são, quase na sua totalidade, indissociáveis da imagem. Basta um simples celular, seja ele pré ou pós. Não obstante, uma tal e infame caneta espiã - todos os dias, ao abrir a internet, ela está lá, em destaque, à mostra e à venda. Ao vê-la e identificá-la sendo usada para os fins que imagino sejam, juro que fico constrangido e penso: meu Deus, a que ponto chegamos? Qualquer um de nós possui a disponibilidade de um click. De uma gravação. A imagem banalizou-se. Penso nos fatos em si mesmos. O que seriam, sem as imagens? Dariam "ibope"? Nos chamariam à atenção? Não nos bastariam enquanto idiossincrasias ou meras circunstâncias humanas, demasiadas e inevitavelmente humanas? Olho algumas das imagens, outras, sei apenas de ouvir contarem. Corpos carbonizados de crianças; helicóptero em chamas, após ter sido abatido em pleno voo; um cadáver "cuidadosamente" arrumado dentro de um carrinho de compras (talvez, o mais expansivo, violento e chocante "toque" do quanto de mercadoria estamos nos deixando tornar); a foto de um moço reluzindo-se em um clarão que explode em seu rosto, cuja história nem preciso ler para saber a desgraceira que é; as pernas de fora da moça na faculdade, que desencadearam um linchamento moral e quase a tragédia de um físico... Sei não, mas acho que vou ficar quieto aqui mesmo, ouvindo os arranjos simples e a voz doce de Maria Gadú cantando Tudo Diferente. Que, provavelmente, querem me "dizer" alguma coisa.
Escrito por Marcos Pardim às 11h04
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