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AINDA E MAIS UMA VEZ OS RITOS DE INICIAÇÃO: ADULTÉRIO
A mesma moça, linda, é casada, e está cada dia mais linda, mais marota, mais atrevida, nos gestos e no vestir-se, As pessoas reparam, as pessoas comentam, E outras coisas mais, as pessoas comentam, reparam, Dizem que a moça, linda, é casada, ô, e tem amantes, juram que é verdade, Coitado do marido, tão bom, tão sério, tão honesto, E dizem mais, e reparam mais, Que o marido, tão moço ainda, anda a definhar-se, aspecto frágil, olhar perdido, Até parece doente, o coitado, Talvez, especulam alguns, a moça, muito marota, muito atrevida, fogosa, esteja o deixando assim, Mas há quem desconfie, torça o nariz, e ache que de tal sorte o marido, tão moço, não desfrute, Que mais certo mesmo, é que a moça, linda e namoradeira, esteja a deixá-lo à mingua, E ele, moço, corno, frágil e afeiado, seja o único a não saber, Vítima que foi, ah, moço, pobre moço, de uma poção, de uma beberagem, chá da "cegueira", própria dos que não querem ver, infusão à base de raspagem dos ossos de um defunto, extraídos sorrateiramente em noites de lua cheia, cemitério vazio, altas horas orvalhadas, que é tiro e queda, A mulher prepara, e o homem toma, Pronto, jamais, nunca, sob hipótese alguma, lhe será dado conhecer a verdade, dolorosa e incômoda, Que a moça, linda, nem disfarçar, disfarça mais, cada dia mais linda.
Escrito por Marcos Pardim às 13h51
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DOS RITOS DE INICIAÇÃO
A moça, linda, descalça, veste um vestido florido, daqueles de algodão, de um algodão fininho, curto, com botões na frente, de cima a baixo, os dois últimos desabotoados, pernas à mostra, dependendo do movimento, mais do que pernas, Os cabelos, negros, soltos, a moça, vira e mexe, prende e solta, com as mãos, Precisa de ajuda, a moça, quer que o menino a ajude a tirar água da cisterna, A manivela feita de madeira range, a corda, enquanto a lata d'água sobe, carregada, também range, Algumas latas cheias depois, que o menino ajuda a moça a despejar dentro de um enorme tambor, a lida finda, Do outro lado do quintal, a moça aponta, um pé de jabuticaba, cheinho, cheinho, carregadinho, carregadinho, O menino colhe, a moça, sentada na mureta que circunda a cisterna, faz do vestido, bacia, e o menino se inicia, delicia.
Escrito por Marcos Pardim às 16h46
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ACHADOS E PERDIDOS
Dentro de uma pasta azul, envelhecida, há papéis amarelados. Em um deles, em letras miúdas datilografadas em uma Remington 125, está escrito, sabe-se lá o por quê: Tudo que não sei fazer, desaprendi. Por isso, faço. Não para ver se aprendo, mas apenas para passar o tempo. Quem quiser desfazer, desfaça. Sempre é tempo. Embaixo, a data: julho/84.
Escrito por Marcos Pardim às 16h33
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FEBRES
Meu filho tem febre. Daquele tipo que o prostra sobre a cama, enfraquecido, com o ar desolado e parecendo perdido, olhar fixo no nada, que eu, silenciosa, secreta e temerariamente, desconfio seja mesmo onde vamos dar, com ou sem coragem, com ou sem fé. É tudo tão prosaico. Tão ternamente prosaico. Até o ato de medicá-lo: antibiótico, descongestionante, antitérmico. Tudo tão prosaicamente igual, geração de pais e filhos após geração de pais e filhos. Uns deitados, frágeis e necessitados de cuidados e outros, ao lado da cama, ternos e cuidadosos, não obstante também sub-repticiamente frágeis e carentes de cuidados, daqueles que quase nunca mais vêm, talvez porque nunca tenham de fato existido. Ao fechar a porta de seu quarto, meus pensamentos vagueiam. Minha lembrança alcança um amigo me contando uma parábola bíblica linda, sobre a diferença de se quebrar pedras ou se construir um templo. Um amigo artista, famoso, muito embora ele ria disso e ache tudo uma grande, uma imensa ilusão. Existir, também, meu amigo, pareço ouví-lo dizer. O que, em verdade, ele já me disse, também me lembro, foi dissertar sobre os variados estados febris a que nos acometemos. Que pena: me esqueci, como a quase tudo me esqueço, de que estados febris ele exemplicava. Sei, sem precisar do recurso da memória, apenas da sensação redentora da pungência e da poesia que as palavras causaram, causam... Volto ao quarto de meu filho. À maneira tradicional e humana, passeio as costas de minhas mãos em seu rosto e em sua testa, na tentativa de medir-lhe o grau de febre. Se ele não delira, graças a Deus, deliro eu, enquanto ele dorme: Há uma febre no medo que embora queima e arda, é capaz de lufadas repentinas de frio, impondo a necessidade do encolhimento em si mesmo. Há uma febre no desejo, na paixão, que, embora queima e arda, é capaz de lufadas contínuas de frio, o análogo frio do medo, estremecendo a necessidade do enredamento em ti.
Escrito por Marcos Pardim às 19h45
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