Caraminholas


DA IMPORTÂNCIA DE SE (RE)INVENTAR

Vou tirando as coisas do carrinho de compras e colocando-as sobre a esteira do caixa, a moça, um a um, registra os itens que, antes de comprá-los, listei para não esquecê-los, Empacotando-os, um moço com aquele rosto marcante de quem é especial, certamente contratado na cota dos deficientes, canta uma canção, daquelas que só possuem melodia, não têm letra, e que se canta como quem quer ninar-se, com carinho e profunda ternura, Entrego o cartão, a moça efetua o recebimento, e o moço continua a canção enquanto ajeita os pacotes no carrinho, para que eu os leve até o carro, A canção que você está cantarolando é linda, foi um imenso prazer ter vindo aqui, hoje, fazer minhas compras, ouvi-lo me foi um presente, obrigado, como se chama essa canção?, digo-lhe, Ele sorri, parecendo espantado com o meu comentário, e me responde: não sei, inventei...



Escrito por Marcos Pardim às 13h30
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AFASTE ESSE CÁLICE DE NÓS...

Para você, Ian e Ingrid o que são? Nomes?

 

Talvez seja isso mesmo o que sejam. Dois nomes que a contemporaneidade deu de presente para que pais, felizes, registrem seus filhos.

 

Mas podem ser algo mais. Mudo então a pergunta: Ian e Ingrid são nomes que lhe dizem alguma coisa?

 

Ian e Ingrid tinham, respectivamente, 12 e 10 anos. Estiveram nas capas de todos os jornais do último final de semana. Foram pauta de matéria na nossa principal rede de TV regional.

 

Ian e Ingrid eram duas pessoas. Duas crianças, cujos corpos foram encontrados, empilhados, em meio aos escombros daquilo que restou do que antes era a residência deles – e da família deles -, após terem sido assassinados e carbonizados, num incêndio proposital.

 

Barbaramente proposital. Como se já não houvesse sido suficientemente bárbaro o fato dos irmãos Ian e Ingrid terem sido espancados e amarrados, antes de serem assassinados.

 

Ainda cabe uma ou outra pergunta: essa é uma cena que lhe parece ser comum? Essa é uma cena que lhe parece ser banal?

 

Se a sua resposta for não, intuo que também concorde que passou da hora de Salto dar um BASTA a este espectro de violência e estupidez humana que insiste em nos rondar – não é de hoje, e os exemplos têm se feitos insistentemente vários.

 

Primeiro, segundo e terceiro setores, sociedade, todos que resistimos e teimosamente acreditamos no humano que ainda há de haver em cada um de nós, devemos nos unir e, conjuntamente, baseados na cultura, na educação e na cidadania, idealizarmos e praticarmos ações e programas teóricos e práticos que possibilitem coibir e diminuir esta seqüência dantesca de barbárie explícita.

 

E não nos venham com “toques de recolher”, com guaritas e cancelas. E não nos venham com discursos fáceis de que este é um problema “apenas” de uma determinada classe social. Não é mais possível (se é que um dia foi) aceitarmos que violência e seu entorno sejam as únicas maneiras de se acreditar como vias juvenis de inserção ou de números estatísticos que recheiam os gráficos da morte.

 

Isso é pouco, senhoras e senhores dignos e indignados. Isso é muito pouco. Que a barbárie, por ser intrinsecamente humana, nos espreite, parece-nos incontrolável. Agora, aceitarmos que ela nos açoite, nos cuspa na cara e nos transforme inapelavelmente em meros espectadores de seu horror, seria resignarmos com a impotência e o conformismo covardes, com a nossa triste constatação de que falhamos grotescamente em nossa tentativa da busca imprescindível de civilidade.

 

Cidadania não deve ser um conceito compreendido somente individualmente. Uma comunidade, um povo ou uma cidade também necessita lutar por ela. Salto, receio, esteja precisando pelejar corajosamente pela sua.

 

Ian e Ingrid podem ser somente dois nomes que pais escolhem para batizar teus filhos. Mas podem também ser possíveis jeitos de se denominar um grito de socorro, um grito de socorro pela sobrevivência daquilo que possamos chamar de humanos no que ainda resta de nós.

 

BASTA!!! Façamos silêncio em respeito a nós mesmos. Na seqüência, partamos para a atitude de restituirmos a cidadania que nos tem sido roubada. Antes que seja tarde demais.

 



Escrito por Marcos Pardim às 15h03
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DE E PARA GENTE ( E PRECISA DE MAIS?)

"O velho pai do meu pai
De velho ficou demente
Na cara só tinha prega
Na boca não tinha dente
Mais ainda se alegrava
Quando a velha lhe mostrava
A forma de fazer gente..."

[autoria desconhecida]

Por e-mail, com a intenção de desejar-me um bom final de semana, Cássio Mattar (que nós aqui do Caraminholas conhecemos por Lacques Jacan) me mandou esta pérola da cultura popular. Para quem gosta de gente e, por acaso não entende bem o por quê, estes versos dão-nos bem um caminho para que saibamos, sem pestanejar...

Ademais, essa cultura de autoria desconhecida é sempre um tiro certo (por sinal, Tiro Certo é o nome irônico de um dos guardas da prisão onde o rei manda prender Frei Duck no genial desenho animado Robin Hood). Sabedoria em estado puro. E desconfio que em estado líquido também...

Viva a Cultura!

Popular ou Erudita é só um rótulo.

Vale mais mesmo é a riqueza nossa de cada dia. A nossa riqueza cultural!!!

Obs: e atentem aí, meus poucos e bons amigos leitores, para o prazo de 31 de outubro para a realização das Conferências Municipais de Cultura. Agitem as secretarias de cultura de onde vocês vivem. A Cultura brasileira está dando um show. Participe dele você também. Use seu afeto para potencializar o que de bom a politica nacional está produzindo.



Escrito por Marcos Pardim às 16h13
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RASPAS DO TACHO

quando aparecia, e, mais dia menos dia, aparecia, parecia dia santo, muito embora nunca sabia se era, ou não, santo dia

e ao referir-se, outro termo mais justo e exato não havia: aparecia. de aparição

cruzava o limiar da porta da cozinha, ia dar com os olhos e a vista do que deles resultava no alpendre, olhava prum lado, olhava pro outro, e com pés miúdos e quase sempre descalços, caminhava para o quintal, jogando milhos pras galinhas

aconselhável seria não haver vento, muito menos ventania, pois que se um ou outro houvesse, daria correria, acode que vai ser levada pelo vento, corre que a ventania vai fazê-la voar

mas nem vento nem ventania puderam com ela

foi arrastada mesmo pela ampulheta do tempo

alice.

 

 



Escrito por Marcos Pardim às 21h08
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