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EI, TÁ QUASE AMANHECENDO. VAMOS?
bateu-lhe à janela. pensou não atender. esgueirou-se por debaixo da porta. roçou-lhe até sentir eriçar pêlos e pele. cochichou-lhe palavras, algumas ternas, outras, ásperas, coruscantes. pegou-lhe as mãos. colocou-lhe de pé. sacudiu-lhe as vestes amarrotadas, botou-lhe foco no olhar perdido, soprou-lhe a face. era bom. era bom, não. era tão bom. pensou ser vento, pensou ser brisa. não era. era o bafejo, o sopro lispectoriano de vida. lá fora, ainda o medo a espreitar, mas também o habitat natural daquilo que não se explica, existe. e só. e basta. bom dia. disse-se.
Escrito por Marcos Pardim às 20h50
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(...) SEGUNDO PARÁGRAFO, TRAVESSÂO...
Antes, e por mais que houvesse, e havia mesmo, uma avenida coloridíssima por ipês, passeariam, sorririam, gargalhariam, recolheriam folhas multi-cores espalhadas pelo chão, jogando pétalas um no outro. Ainda antes, mas por que também o passeio, muito embora feliz, acabaste, cada um seguiria, tal qual bandeirantes desbravando caminhos, coincidentemente desencontrados, um sentido capital, outro sentido interior, procurando um jeito de estender o agora, fazendo dele a melhor maneira de distanciar ou de espantar um possível depois. Por ora, esteja com Deus, boa sorte, sê feliz e até depois, se depois houver, poderia ser o resumo da ópera, que a agulha arranha na vitrola de cada um. E eu, tal qual um confidente anônimo, registro e transformo em rascunho aquilo que, por si só, não passa disto mesmo. *** se você, leitor(a), aceitar uma sugestão de trilha sonora para este post e para o imediatamente abaixo deste, cutuca aqui: http://www.youtube.com/watch?v=d36q0ZjPMZQ
Escrito por Marcos Pardim às 15h46
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DOIS PONTOS, PARÁGRAFO, TRAVESSÃO...
Depois, quando não houver mais segredos, quando não houver mais ciúmes, quando não houver nem mais motivos para tê-los, cada um a seu tempo, cada um à sua lembrança e a seu modo, com mágoas ou não, com frieza ou absurda tristeza, haverá de encarar a caixa encostada a um canto do cômodo, talvez lacrada, talvez com a tampa semi-aberta, onde estarão depositados, mais do que utensílios domésticos não usáveis, os cacos incoláveis de uma história findada, esperançosamente jurada a não ter fim. Mas agora ainda não é depois, e de mãos dadas é possível avistarem dali os ipês, escandalosamente floridos, que ladeiam a avenida mais adiante, por onde passarão daqui a pouco.
Escrito por Marcos Pardim às 20h32
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CICATRIZ
à luz de lamparina: faz, desfaz, refaz. teu caminho. teu trilho. tua vereda. se da salvação ou da perdição, algum dia haverá de saber. à luz de lamparina: faz, desfaz, refaz. um enredo. um roteiro. uma história. ou seria uma estória? à luz de lamparina: tenta não cegar-se. tatear-se. para enxergar (o caminho, o trilho, a vereda). que deus queira possa ser a que lhe salve da perdição. de ser. à luz de lamparina: tenta não cegar-se, tatear-se. para entender (o enredo, o roteiro, a história). ainda que seja a antiga estória contada ao redor da fogueira. da figueira. ou, antes ainda, da macieira. é preciso cuidado. é preciso atenção. a luz da lamparina, sob e ao lado da cama, se iluminava, também foi capaz de ferir. deixou marca. cicatriz. abaixo do olho e acima da narina esquerda. para sempre. para todo o sempre. à luz de lamparina. amém. *** da série palavras um dia agrupadas e esquecidas no desmaio do tempo (um jeito poeticamente capenga de homenagear meu velho pai, a mim mesmo e a todos os pais - e mães. pois que, noves fora o milagre feminino da gestação, tudo o mais nos faz humanamente iguais - pais são também mães e mães, pais).
Escrito por Marcos Pardim às 12h57
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