Caraminholas


MODUS VIVENDI OU UM JEITO INVEJÁVEL DE DANÇAR O TANGO DA VIDA

Dois amigos se encontram. Não meros conhecidos, amigos mesmo, daqueles à vera. Amigos antigos e de hábitos igualmente antigos. Por conta disso, e não estando em orkuts, msns, facebooks e twitters da vida, fazia tempo não se falavam. Notícias um do outro? Apenas, genéricas.

Conversa vai, conversa vem, um deles fica sabendo que o outro, profissionalmente falando, anda fazendo coisas bem bacanas. Fica feliz. Parabeniza-o. Na base da sacanagem, diz ao amigo que ele anda cada vez mais especializado em enganar aos outros. Riem.

O outro responde: Verdade. Sigo enganando. Mas, mais verdade ainda o fato de que descobri que gosto mesmo é de viver enganado. Pela própria vida.

Pano.

Garçom, por favor...



Escrito por Marcos Pardim às 11h03
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FRESTAS

DE UM LADO:

o vestido preto dependura-se no cabide suspenso do closet. seus dedos, lentos, cuidadosos, acariciam o seu tecido. o echarpe, em tom pastel, discreto, dentro da gaveta - que abriu aleatoriamente -, ladeia-se com o cachecol marrom claro.

por sob esta mesma gaveta, uma fileira de pares de sapatos femininos - alguns de saltos altos, outros, baixos, rasteiros - repousam no chão, aparentemente intocáveis.

fecha a porta. e os olhos.

lá fora, carros freiam e buzinam. pessoas apressam os passos. a tarde se esvai. a noite virá, aliás já vem. quem se ausenta, também?

tudo parece conspirar para que sim. até mesmo o banho pronto, com toalhas e sabonetes caprichosamente preparados.

mas esperar traz em si, sempre, a possibilidade da angústia, do receio de que algo, inesperadamente, aconteça. e o sim transforme-se em não. a angústia em decepção - e solidão.

DO OUTRO LADO:

o celular tocou. o aparelho estava distante. foi atender. quando voltou, a janela já não mais estava aberta. perdeu o fio da meada. o trem da história - que ficou suspensa. sem final. tanto quanto boa parte delas. das histórias que presenciamos pelas frestas. muitas vezes, inadvertidamente abertas. de qualquer um de nós.

 



Escrito por Marcos Pardim às 17h46
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VALORES

Leio, em artigo de Clóvis Rossi na Folha de São Paulo, que a seção brasileira do mais recente relatório de Desenvolvimento Humano do PNUD (Programa das Nações Unidas Para o Desenvolvimento) terá como tema "valores". A partir de uma pergunta: "O que deve mudar no Brasil para sua vida melhorar de verdade?", 500 mil brasileiros (eu, excluso; aliás, incrível como sou preterido pelos institutos de pesquisa!; fora o censo, nunca respondi a questionário algum) responderam majoritariamente coisas assim: "respeito, justiça, paz, amor, honestidade, humanidade, responsabilidade, consciência..".

A novidade? Para mim, nas respostas, nenhuma. Na pergunta, sim: o fato de que, pela primeira vez, o relatório levou em conta a importância óbvia de que a pergunta não embutia respostas induzidas, o que permitiu às pessoas responderem o que quisessem. Ao final da leitura, embatuquei com algo que, em verdade, embatuco já há tempo. Desambatuque, pois, embatucado blogueiro:

Cada povo tem o governo que merece. O Congresso é a nossa cara. Os nossos representantes que lá estão, nas Câmaras Legislativas ou nas cadeiras executivas, fomos nós mesmos que colocamos, vamos reclamar do quê? Democracia é assim mesmo... São alguns dos vários exemplos de frases feitas e lugares-comuns que acostumamos a ouvir. Uma pinóia, digo eu.

Discordo, visceralmente. Eu não mereço. Você não merece. Ele não merece. E ao dizer "você" ou "ele", me refiro diretamente a tantos que conheço e a outra imensidão de tantos que desconheço, mas que também não merecem, não senhor, não senhora. Não sou. Não fui. Sequer almejo ou tenho por desejo de consumo ser "santo". Mas têm certas coisas que não sou capaz de fazer. Reconheço, verdadeiramente, que nos é um esforço hercúleo tentarmos ser civilizados. Aos meus olhos, esta tentativa desesperada trata-se de uma das mais lindas lutas humanas.

Somos, sim, acredito e afirmo, um povo na sua maioria bons, trabalhadores, honestos, empreendedores, vá lá: mulherengos, preguiçosos, assanhados, olhamos, sim, tal qual fôssemos Obamas quaisquer, a bunda da mulher que passa ao lado, mas e daí se, por outro lado, jamais faremos coisas como desviar dinheiro público, corromper cidadãos honrados, barganhar poder, roubar, matar, estuprar, enriquecer-se ílicitamente, prejudicar deliberadamente os outros... Isso, senhores e senhoras, não fazemos, não.

É este exército de pessoas comuns, que vive o seu dia-a-dia comezinho, simples como "arroz e feijão, a perfeita combinação", feito de  pequenas alegrias ou até mesmo de tragédias pessoais imensas, que sorri, que chora, que dá abraços fortes, apertos de mãos sinceros, joga o seu gole de cachaça pro santo, "sacaneia" na boa o amigo, se delicía ou se indigna com a fofoca displicente, ingênua e despretenciosa, cria teus filhos com carinho, atenção e desejando para eles a mais justa da equação, que ao final e ao cabo se resume em ser feliz, que toca o país em frente, que teima, que arde de fé e esperança.

Assim é, que também não acredito que sejam todos os políticos ou servidores públicos que chafurdam na indecência humana, muito embora seja fato que boa (melhor dizer: má) parte deles lambuza-se na excrescência da excrescência, qual seja a de ter coragem de permitir-se descer à mais baixa e sórdida condição humana de corromper-se pela maior das ilusões, a ilusão do poder e da dinheirama fácil que escorre pelo ralo da coisa pública.

Portanto, meu amigo, minha amiga que por aqui se deixa passear, não é verdade que somos aquilo que nossos representantes querem nos fazer crer que somos. Somos diferentes deles. Muito diferentes. E é graças a nós que viver continua sendo esta delícia que é, apesar de...



Escrito por Marcos Pardim às 11h08
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FESTEJOS

Este blogueiro, que um leitor certa vez escreveu que mais correto seria dizer blogado, ajuntador aleatório de letras, rabiscador de palavras, é um homem dado a arroubos quando se trata de gostar das coisas. Gosta de gente - o que, antes de ser uma virtude, é, em verdade, um erro de formação anatômica, tal qual àqueles famosos versos do poeta Maiakovski quando dizem que a anatomia virou loucura, mas que este cronista fuleiro conheceu mesmo foi de ouvir Jorge Mautner cantando-os.

Gente é capaz de muitas e diversas coisas. E o gostar, provavelmente, nasceu de uma outra espécie de loucura: a de acreditar-se fruto da Cultura, a tal ponto deste mesmo acreditar ter sido ( e ainda continuar sendo) impulsionador de boa parte das poucas coisas a que a preguiça natural de existir lhe permitiram (e ainda permitem) ousar querer fazer.

No mais das vezes bobo, este rabiscador desmancha-se todo quando se vê envolvido em realizações culturais que julga bacanas. Nestes últimos dias, por exemplo, quando a FASAM - Familiares e Amigos da Saúde Mental, Ponto de Cultura Para Todos os Especiais, estreou - mais precisamente em 2 de julho - o seu mais novo espetáculo: "Festejos da Inclusão", que põe no palco noventa crianças e jovens, todos envolvidos em algum tipo de vulnerabilidade social, alguns com casos escandalosamente tristes, outros tantos na cota dos especiais (downs, cadeirantes, cegos, esquizofrênicos, etc), misturados à etnia Kariri Xocó, indígenas da longínqua cidade alagoana de Porto Real do Colégio, à UNEI (União Negra Ituana), à Companhia de Folia de Reis do Pirapitingui e à Associação Ituana de Hip Hop.

Um caldeirão fervilhante de poções plurais capaz de produzir uma alegre e multicultural festa, uma celebração. Em um palco limpo, que se abstem do recurso de cenários e/ou dos rebuscamentos estéticos dos adereços de cena, o roteiro privilegia essencialmente o ser humano, e tudo aquilo que, culturais por natureza, somos capazes de produzir por nossos dotes naturais.

Um roteiro que objetiva contar a cronologia da cultura paulista, que tem na cidade de Itu um importante nicho histórico, através das muitas etnias que a escreveram, de forma descompromissada, alegre, caótica. Uma celebração que leva em conta muitas coisas. Primeiramente, aliás, fundamentalmente, o fato de estarmos vivos, a tolerância, a generosidade, a convivência, a diversidade humana e cultural, a utopia do amor entre as pessoas e os povos, o exercício diário da compaixão etc etc etc.

Um espetáculo onde a história pessoal possa servir de palco ou de cenário, porque aquilo que os assistidos da FASAM encenam não é nada mais do que o que cada um de nós pode almejar produzir, ou ao menos saber reconhecer e valorizar, respeitando-se as limitações, sejam elas físicas ou intelectuais, mas que em nada impedem a concepção da beleza ou da imprescindível delicadeza, que tão bem nos fazem, não obstante a aventura de existirmos.  



Escrito por Marcos Pardim às 21h29
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