ENQUANTO ENTARDECERES REZAM
inominável, não que não possuas um nome, mas que todos os nomes, masculinos ou femininos, falados ou escritos em qualquer idioma, língua ou dialeto, lhe caem tão bem, és personagem de uma história que ora parece estar sob teu controle, ora sendo contada por narradores benfazejos que fazem e desfazem os nós da trama como bem entendem ou querem, por vezes, essencialmente quixote, noutras, simplesmente quixotesco, é possível avistar-te, personagem ou invenção de ti mesmo, ora mirando o horizonte aberto, contando estrelas no céu, imaginando vencível toda e qualquer batalha, campal, naval, moral ou imoral, ora vergado na espinha dorsal, olhos repetidas vezes voltados para o sul, pois que decifrar ou devorar a existência tem muito a ver com desenhá-la em pontos cardeais, chutando tampinhas, recolhendo tocos, guimbas, bitucas de cigarros jogados ao chão, tão definitivamente umedecidos que nem mesmo o atrito imemorial de gravetos seria capaz de (re)acendê-los, tragando-te pela tua necessidade de tragar, engolindo-te pelo próprio desejo teu de engolir, a sorte está em que por detrás de qualquer fog londrino, ainda que seja de qualquer lugarejo, aldeia, quilombo, maloca, condomínio ou favela, sempre haverá de existir uma esquina no caminho, tal qual uma pedra, mudando o rumo da história, a perspectiva, a paisagem do olhar, possibilitando-te, oh, inominável, tu que atendes ao chamado de todos os nomes, danar em fogo-fátuo da esperança, para além da etimologia.
Escrito por Marcos Pardim às 20h15
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
CHINA, POÇOS DE CALDAS, MISSIONÁRIOS E CAETANO
Ultimamente, minha condição de não-alforriado e uma virose me tiraram o tempo e as forças. Ainda um tanto alquebrado, ensaio alguns rabiscos, um arremedo de crônica que fale um pouco sobre minhas recentes impressões ou emoções. Vamos à ela, seguindo a sequência lógica do título acima, escolhido antes mesmo do que virá abaixo, seja lá do que for capaz: 4 de junho relembrou os 20 anos do que ficou conhecido como o massacre da Praça da Paz Celestial. A imagem daquele homem frágil, solitário, corajosamente postado defronte ao comboio de tanques militares voltou a correr o mundo, ilustrando blogs, matérias de jornais, capas de site ou reportagens de TV. Entre muitas que, a ferro e fogo, imprimiram-se indeléveis em minha memória, esta imagem é das mais significativas e marcantes. Em outubro de 1989 publiquei meu livro Que a Lua Habite o Papel, cuja dedicatória diz: Aos jovens estudantes chineses que, num grito à liberdade, tomaram a Praça Tiananmem (Praça da Paz Celestial) - em especial, a Wang Weilin. 6 e 7 de junho foi o final de semana que aconteceu, em Poços de Caldas (MG), uma das etapas da Copa das Nações Danone, categoria sub-12. Trata-se, em números, segundo dados do site www.copadanone.com.br, do maior torneio infantil de futebol do mundo, reunindo 42 países. Desconfio sempre de superlativos. Mas, mesmo desconfiado, prossigo: após fases classificatórias em cada país, acontece em Paris, na França, uma espécie de Copa Mundial, onde disputam os campeões de cada um dos países inscritos. Pedro, meu filho, é goleiro. Indicado por olheiros, defendeu o time do Poços de Caldas Futebol Clube - Vulcão. Sagraram-se vice-campeões e Pedro, mesmo sendo goleiro, foi agraciado com o troféu de melhor jogador da Copa das Nações, fase Poços de Caldas. Muito mais do que orgulho de pai, fui tomado por uma sensação gostosa de surpresa e alegria. Em um torneio dessa dimensão, que reúne tantos e talentosos jogadores de linha, trata-se de uma missão quase impossível para um goleiro ser escolhido para esta premiação. Meu filho conseguiu. E age como se nem tivesse sido com ele. Isto, sim, me deixa orgulhoso. Hoje pela manhã, feriado de Corpus Christi, tomo café reunido em família. Um barulho vindo da rua invade o silêncio matinal. Um carro de som, altíssimo, anuncia, pela primeira vez em Salto, a presença do missionário R.R. Soares. Diz tratar-se de um "show de fé", seja lá o que signifique tal expressão, com data, local e horário agendados. Faltou dizer o valor da entrada. Mas não faltou, ao final da mensagem, elencar a série de patrocinadores. São mesmo estranhos estes nossos tempos, onde fé se vende (o que deixa subentendido que também se compra) em "shows artísticos", e missionários - de qualquer religião, a bem da verdade - são nos apresentado como se pop stars fossem. Tô fora! Por fim, ligo o computador e abro as páginas do jornal. Uma das notícias informa que o Ministério da Cultura negou verba a Caetano Veloso, via renúncia fiscal da Lei Rouanet. Sou fã de Caetano, e não é de hoje nem será de amanhã. Possuo LPs, CDs, e já frequentei shows dele. Mas, para além de fruidor de cultura & arte, sou também operário cultural, e tento manter-me íntegro e honesto aos meus princípios, inclusive de fé. Fiel a isso, mas nunca a missionários de qualquer espécie, inclusive culturais, pergunto: honestamente, raro leitor, avis rara leitora, é preciso renúncia fiscal para levantar os 2 milhões previstos na planilha de custos do projeto de excursão do show de Caetano? Por óbvio, a resposta é não, não é preciso. E é por esse e outros exemplos, mais "cabeludos" ainda, que está mais do que certo o MinC em querer alterar os mecanismos da lei, muito embora a mesma matéria informe que o ministro irá vetar o veto. Dá pra imaginar o "terrorismo" que uma notícia desta propicia aos defensores da vigência da lei atual.
Escrito por Marcos Pardim às 11h51
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|