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A COINCIDÊNCIA DE ENSAIOS
Hoje é domingo, pede cachimbo... diz um dos versos de uma parlenda popular. Me lembrei dela quando dei uma fuçada pelo site da Carta Maior. O link do porquê desta lembrança estará ao final destes rabiscos. Antes, alguns esclarecimentos e algumas coincidências. Assisti, ontem à noite, em DVD, ao filme Ensaio Sobre a Cegueira, dirigido pelo cineasta brasileiro Fernando Meirelles, que é baseado no livro homônimo do escritor português José Saramago. Quem leu o livro ou assistiu ao filme, sabe de que baixezas, vilezas e tristezas somos humanamente capazes. É um alívio milagroso imaginar que também somos igualmente capazes de gestos e atitudes de nobreza e beleza humanas. Mas, agora, é das anteriores que se quer aqui falar. Não como crítica social panfletária nem como discurso vazio. Antes, como a necessidade imprescindível de a sociedade olhar carinhosa, terna e generosamente para mazelas tão antigas quanto renitentes. Logo após ao almoço, motivado por um trabalho a ser feito, concedi-me alguns minutos para fuçar pela net. Deparei com um Ensaio Sobre a Barbárie, texto e fotos tão irretocáveis quanto necessários, de Eduardo Zidin - cuja identificação profissional o site não traz, infelizmente. Alguém, até com certa razão, poderá dizer: não tenho estômago. Diria eu: não é de estômago que se precisa. É de olhos, primeiro. Olhos de ver. Depois, de algo mais subjetivo, como coração, alma, decência, dignidade, ética. Ou qualquer outro, à escolha do(a) leitor(a). http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=16012
Escrito por Marcos Pardim às 15h17
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Palavras, apenas
Sairá, logo pela manhã, ninguém verá, À tarde, não voltará, alguém notará? Fará frio quando anoitecer, a escuridão, seguindo o destino de por vezes amedrontar, amedrontará, Talvez terá sido preciso empreender uma procura, pelas ruas, vielas, esquinas, becos, bares, delegacias, prontos socorros, hospitais, velórios, sabendo-se, de antemão, que buscas deste tipo jamais serão facilitadas, Não haverá traço, troço qualquer que poderá ajudar na identificação por amostragem, tentativa e erro, Ao mesmo tempo, e muito por conta disso, sempre haverá de existir quem devaneie sejamos iguais, Em quê?, não se saberá, pois nunca se soube, Talvez, na possibilidade de que perder-se tenha lá suas peculiaridades, dentre elas a de promover a revolução da igualdade, Antônimos e sinônimos, correndo o sério e provável risco de se ser anônimo, ninguém vendo, ninguém notando. Anoiteceu, faz frio. *** da série palavras um dia agrupadas e esquecidas no desmaio do tempo.
Escrito por Marcos Pardim às 19h19
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PRÊMIO CULTURAL LOUCOS PELA DIVERSIDADEEdital é resultado da oficina de mesmo nome realizada em 2007O Ministério da Cultura lançou na terça-feira, 12 de maio, no Encontro Internacional Reformas Psiquiátricas e Transformação Cultural no Brasil e no Mundo: 30 anos da Lei Franco Basaglia, o Edital Prêmio Cultural Loucos pela Diversidade 2009 - Edição Austregésilo Carrano.Parceria entre Ministérios da Cultura (MinC) e da Saúde (MS), respectivamente por meio da Secretaria da Identidade e da Diversidade Cultural (SID) e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o Laboratório de Estudos e Pesquisas em Saúde Mental (LAPS) e a Caixa Econômica Federal. O processo que culminou no lançamento da premiação teve início em 2007 quando a SID/MinC e a Fiocruz realizaram a Oficina Loucos pela Diversidade, com o objetivo de construir ações e diretrizes para as políticas públicas de cultura. Além desse edital, a iniciativa resultou em publicação com o mesmo nome, a qual já teve distribuídos mais de 3 mil exemplares em diversos eventos de âmbito nacional e internacional.Nota do blogueiro: em meio à avalanche de notícias que quase nos soterram diariamente, aos tantos emails que recebemos, muitos dos quais nem sequer abrimos, vez ou outra uma (notícia) ou um (email) chega até nós recheado de alegria. Esta acima, por exemplo. Desde sempre sofro atração pelo que convencionamos chamar de loucura. Devo atraí-la. Impressiono-me ao lembrar, desde "Toniquinho Chorão" lá na minha mais tenra idade, quantos "andarilhos, marginais e loucos" já se aproximaram, e se aproximam, de mim. Sem eu saber por quê, me tratam com deferência, com amizade, com carinho. Não à toa, coordeno o Ponto de Cultura Para Todos os Especiais, cuja sigla, FASAM, significa Familiares e Amigos da Saúde Mental. Dia desses, em companhia de Vera Portella, presidente da entidade, estive na Cinemateca, em SP, para um debate sobre as alterações propostas à Lei Rouanet, notadamente as que dizem respeito às políticas públicas culturais voltadas para este público. Este edital é uma vitória e tanto. Nise da Silveira, se viva fosse, certamente estaria feliz. Humildemente, fico eu por ela.
Escrito por Marcos Pardim às 20h42
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MAIS UM OUTONO
Amanhã é 13 de maio. Dia em que a princesa Isabel assinou a Lei Áurea, concedendo a abolição aos escravos. Páginas de mais uma das tantas histórias vilipendiosas escritas pela humanidade. Mas também é dia de meu aniversário. Faço 46 anos, às nove horas da manhã, segundo detalha o meu registro em cartório. Por conta disso, aquele bonequinho que ilustra a parte lateral alta deste blog passará a contar uma nova informação: onde antes se lia de 36 a 45 anos, passará a se ler de 46 a 55 anos - o que sinaliza que não precisarei alterar este dado pelos próximos 10 anos. Para quem é amigo do ócio, isto não é um mero detalhe. Não sei bem por quê, aliás acho que sei sim, mas aniversariar me faz pensar em palmadas. Sobretudo naquelas que mereci, e não as levei. Mas quando se nasce, não tem jeito: o médico desce a mão no bumbum da gente, e soltamos o nosso primeiro grito, a nossa primeira esperneada da existência. Nestes dias que correm, talvez por nostalgia, talvez por melancolia, ou talvez mesmo porque eles sejam os meus grandes ídolos, tenho pensado em d. Odilia e em seu Tuta, minha mãe e meu avô materno respectivamente. Ambos, conforme costuma dizer Rolando Boldrin, "já viajaram fora do combinado". Ambos também usavam, com frequência, duas palavras antônimas para ilustrar o que julgavam ser ensinamentos bons de se dar: decência e indecência. Passo, e se Deus assim me permitir, passarei longe do moralismo para todo o sempre, amém. Dito isso, continuo: recentemente, em um artigo para jornal, por motivos que não vêm ao caso agora, pedi, por favor, que médicos e auditores de um certo plano de saúde privado fossem menos indecentes, que tivessem um pouco mais de decência humana. Não são só eles que andam precisando. Tenho achado, verdadeira e sistematicamente, que a sociedade temos nos esmeirado em produzir indecências. Sei que amanhã ganharei presentes. Na verdade, até já ganhei dois antecipadamente. Decerto que ficarei, e fico, feliz com eles. É certo também que, no mais das vezes, não padeço de mal-humores ou cóleras de ira. Mas, se pudesse pedir alguma coisa de presente, pediria que fôssemos um pouco menos indecentes (ou, se preferirem, mais decentes) em nossas relações, sejam elas pessoais ou profissionais. Ah, e tomem uma por mim. Que o mundo é bão, Sebastião. E morrer, morre-se mesmo, e depois de amanhã faz dois dias, como diria seu Tuta.
Escrito por Marcos Pardim às 19h31
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CONFESSIONÁRIO (OU COMO O PERDÃO PODE VIR TÃO SIMPLES)
Houve um tempo, e a antiga e tão bela canção o eternizou, em que "havia galos, noites e quintais". Neste tempo, também era um tempo em que havia a missa dominical. Nove horas da manhã. Igreja da Matriz. Missa das Crianças. O menino, bolsista em um colégio religioso, quase nunca a perdia. Somente um motivo era capaz de fazer o menino esquecê-la, ou despistá-la - o que, em verdade, soa mais verossímil - : o futebol. O menino jogava pela categoria dente-de-leite de um clube da cidade. Se na manhã de domingo jogo houvesse, na segunda-feira, para mistério e espanto do menino, a madre superiora o apontaria, bem como a todos os outros que também houvessem faltado à missa das crianças, marcando-o, com o dedo indicador, como um pequeno alguém em falta. Com Deus. Um destes domingos, manhãzinha, jogo pelo time não havia. Mas havia a pelada de rua, os pés descalços, dois paralelepípedos fazendo as vezes do gol, da meta, do lugar sagrado, onde ao ultrapassar a linha fatal a bola contaria uma história. Épica. Feita de heróis e bandidos. Derrotados e vencedores. Como todo e igual domingo, o padre saia pelas ruas da cidade, tão pequenina que mal cabia em Ana ou Maria. O padre batucava em um bumbo e distribuia balas às crianças. Atrás, em direção à Matriz, um cortejo de meninos e meninas o seguia, rumo à missa. O cortejo passou por onde o menino, junto com seus amigos, disputava a sua pelada, na tentativa de fazer parte da história. Aquela mesma história que se pode contar depois, homem feito, para os filhos em casa ou para os amigos, ao redor de uma mesa, onde também se pode rezar. O padre atravessou pelo caminho. Os meninos não pararam. O padre convidou-os, chamando-lhes à atenção. Nem o bumbo nem as balas foram capazes de fazer os meninos largarem o jogo, a brincadeira, a bola. O padre puxou o menino pelo braço. O menino, tentando desvencilhar-se, disse - me larga, padre. E correu atrás do passe, para dar sequência ou para interceptá-lo. O padre o seguiu. Tormou a puxá-lo, mais forte, pelo braço. O menino, novamente, tentou soltar-se. O padre não o soltou. O menino, num surto violento, desgarrando-se, lascou: - vai tomar no cu, padre. Hoje, na paisagem da memória, pintada em tintas frescas, a lembrança lhe sorri. A avó, ralhando, passa-lhe a descompostura: - não devia ter feito isso, menino, é pecado mortal. O avô, que de perto a cena assiste, de soslaio sorri e dá-lhe uma piscadela. Perdoado, o menino vira homem. Do tipo que conta histórias aos filhos. E reza, ao redor de uma mesa, com os amigos.
Escrito por Marcos Pardim às 19h32
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