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DEPOIS AINDA DIZEM QUE SEDUZIR NÃO É UMA ARTE
lei seca à parte, e que me perdoem os defensores dela, eu incluso, vezenquando só mesmo o cenário de uma mesa de bar, quando dois amigos, desarmados, mas jamais desalmados, trocam confidências e, sob o leve desatino da embriaguez de duas ou três inofensivas doses a mais, somente a língua mais leve, solta, corações umedecidos, é que pode propiciar o dizer ou o ouvir coisas macias ou felpudas, mas invariavelmente pérolas tão tristes quanto tão belas
exemplo recente, a confissão da declaração de amor mais linda, de um homem para uma mulher, que os ouvidos deste que vos sopra o milagre, mas omite o santo, já ouviu nos últimos tempos
o santo, digo: o amigo, já naquelas condições que fazem jus às descrições citadas no primeiro páragrafo desta composição, aquela fase em que o sujeito chora as pitangas deixadas no pé a apodrecer, o irremediável leite derramado de erros passados, àquela hora em que um guardanapo lhe cai bem melhor que um lenço, e não há documento algum capaz de comprovar existência nenhuma, me conta que, ao conhecer a sua atual mulher, tão amada e sofrida amante, ouviu dela o relato de amores tão doloridos que lhe fizeram sussurar aos ouvidos: "queria, meu amor, saber amar, saber fazer amor tão bem como você merece, não sei, mas juro que ainda haverei de aprender, só pra te fazer feliz"
tal qual um epílogo, podem descer o pano, rápido, gritem bravo, só não peçam o bis, pois que meus olhos, invejosos dos corações, ainda estarão umedecidos
Escrito por Marcos Pardim às 14h29
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25 DE JULHO É O DIA, 20 É A HORA, SINTAM-SE CONVIDADOS
Embora motes e vontade não me faltem, tenho andado obrigatoriamente alheio ao mundo virtual, tanto na manutenção dos garranchos daqui quanto na leitura prazerosa e muitas vezes indispensável das letras dos blogs que gosto de visitar.
Algumas coisas têm contribuido para este meu alheamento compulsório, dentre elas a roteirização, produção e ensaios do sarau lítero-musical 25 ANOS DE ESTRADAS, CANÇÕES E RABISCOS (ver post de 24/06/08). A bem da verdade, sarau lítero-musical é antes um metido eufemismo para um brincadeira, uma deliciosa brincadeira, um troço qualquer, cujo roteiro remete a um outro tempo, recente, mas inexoravelmente um outro tempo. Uma forma que, dois amigos, encontramos para brindar coisas cotidianas e banais como a amizade e o reencontro.
Dois jovens, recém saídos da adolescência, se encontram em uma cidade estranha a ambos: Marília, calouros de cursos de Humanas na UNESP (Universidade Estadual Paulista). Como necessária contextualização, é preciso lembrar que havia no país, que vivia então sob o peso das mãos e dos coturnos do militarismo, uma aura de liberdade possível. O Brasil, entusiasticamente, inebriava-se no clima das Diretas Já, movimento que culminou com a restauração da democracia, este "conceitozinho desimportante e básico" que nos permite votar e escolhermos a quem queremos a nos governar.
A luta por essa liberdade impregnava a sociedade de uma espécie de catarse que nos impulsionava a sonhar com uma felicidade que prometia ser coletiva, e não somente um luxo individual e intransferível. Os jovens da época, inclusa a dupla dinâmica composta por este que vos torra a paciência e Marcelo Roverso, encontravam nas Artes, na filosofia, na sociologia e na psicologia, a companhia diária e ideal para se fazerem protagonistas daquele momento histórico.
Nas Artes, era comum música e literatura, sobretudo poesia, se unirem para dar vez e voz aos sonhos e utopias de meninos e meninas que, com seus cabelos longos, batas indianas, sandálias, bolsas e chinelas de couro, acreditávamos, pretensiosos, iriamos mudar o mundo, obviamente para melhor. Hoje, 25 anos & quilos depois, continuamos jovens (ou ao menos temos a imperativa vontade de que assim nos vejam), mas certamente não fomos capazes nem de mudar, muito menos de melhorar o mundo. Talvez, quando muito, tenhamos conseguido mudar e melhorar a nós mesmos, o que haverá de não ter sido pouca coisa.
Eu, rabiscador e ajuntador de letras, e o produtor, poeta, blueseiro e amigo Marcelo Roverso, estaremos brincando de contadores de história. De uma história que começou há um quarto de século atrás e veio sendo construída, numa espécie de mosaico sem fim, onde se vai juntando os cacos espalhados pelas estradas, canções e rabiscos. Uma história que só quer mesmo, despretensiosamente repita-se, celebrar esta coisa simples e comezinha que é a amizade, que acredito será companheira da humanidade enquanto a nós for possível o milagre da existência.
P.S. - Nesta mesma noite, a primeira atração ficará por conta de uma performance teatral da atriz Jaqueline Durans (da cidade paulista de Limeira). Em seguida, acontecerá o sarau descrito acima. Ambas as programações fazem parte do Festival de Artes de Inverno do TEMEC (Teatro e Escola de Música Eleazar de Carvalho), coordenado por Marcelo Roverso. O teatro fica à rua Cuiabá, 61, Bairro Brasil, Itu, (11)4022-0206 e os ingressos custam a exorbitância de R$10,00 ("deiz real").
Escrito por Marcos Pardim às 20h29
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PALAVRAS QUE, COMO ÁGUAS, VAZAM
São todos estes os teus olhos, para além, muito além, dos dois que me fitam, par de antenas que ora me tateiam, ora me despem, e o que sei eu de você, você de mim?
Apenas que o verbo que nos roça, atiça, arrepia, transpira, no hoje que a toda hora se acaba, no amanhã que, embora custe a chegar, começa e termina no reencontro, e o que sei eu, que sabe você?, sobre o por que amar no princípio, se não foi, deveria ter sido.
Me decifre ou me devore. Me peque ou me perdoe. Me satanize ou me santifique. Na pureza de um limão ou na sedução de uma maçã, ou pode até ser na alegria ou na tristeza, na saúde ou na doença, para todo o sempre, amém, sobretudo aquele para sempre que nos mostra a face do abandono logo ali, se não na próxima, na outra curva do rio, riacho, lago, poça, gota, pingo, lágrima...
Mas faça de mim, aquilo que só você pode fazer, algo melhor do que eu mesmo não seria, por não saber ser, sem você, meu verbo, meu princípio, meio e fim, meu gênesis: Amor.
Escrito por Marcos Pardim às 22h49
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