Caraminholas
   lágrimas

quereria te dizer sobre todas as preces que deveria ter rezado, e não orei, sobre todas as orações que fiz, e não deveria ter orado, pois foram frutos antes do desespero e sensação de abandono que da fé, aquela que dizem remove montanhas, mas que em mim sequer é capaz de mover os galhos secos e retorcidos desta árvore que, no paraíso, deve ser frondosa, e o que hei de fazer se do paraíso me traficam mais a consolação, aquela que, se não me redime, ao menos me comove e, comovido estando, reconheço em mim o sentimento que necessito, devo e preciso ter, e não sei se tenho, por você, meu amor, minha dor inevitável, por ser a única e derradeira maneira de fazer piscar a luz no fim do túnel, por onde trafega o trem mais desgovernado que conheço, aquele que me carrega ladeira abaixo, morro acima, transportando o milagre que tanto me dá, e tanto me tira, que é viver, eu que sei, aprendi, na marra, no murro, que por vezes é a carraspana, a embriaguez, o porre e não a porra, o colo e não a foda que se faz porta-voz da macheza, que te faz homem em certas horas, sobretudo as nuas, luas que precisam iluminar ruas, calçadas, esquinas, caminhos, se é que me entendes, por favor me entenda. 

Escrito por Marcos Pardim às 13h59
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   ESTRADAS, CANÇÕES E RABISCOS

Lá no blog de Xico Sá li uma crônica: Sobre Homens e Bacuraus. A partir de um encontro com um amigo e do natural bate-papo advindo dele, Sá criou um clima nostálgico, relembrando fatos e pessoas importantes de sua vida nos, no dizer dele, "anos um, nove, oito, zero, 1980".

Pensei assim: sei não, mas acho que esse revival nostálgico anda meio que pairando no ar, feito vírus gripal, e nós, quarentões, esquecidos da picadinha da vacina anti-nostálgica da meia-idade, andamos facilmente contagiados.

Também eu, há pouco mais de um mês atrás,  reencontrei um velho e querido amigo, cujo ápice da amizade se deu naqueles anos "um, nove, oito, zero, 1980", anos estes que me influenciaram de maneira definitiva, moldando este mal-ajambrado ser, quando me fizeram desligar-se da meninice e entrar na adultice, ainda que não tenham me alijado da procura, do desejo e da utopia de um mundo melhor, este sonho que se mostrou, mostra e talvez mostrará incapaz de tornar o mundo justo, mas que me parece indispensável, na falta de um melhor. Também foram anos que me fizeram cair os tombos mais doloridos da existência, embora sejam responsáveis também por terem me dado fatos e pessoas inesquecíveis e geniais.

Pois bem, e sem mais delongas, que o tempo é curto e a paciência dos cinco ou seis leitores deste blog menor ainda, reencontrei um amigo: Marcelo Roverso, poeta e blueseiro, espantosamente ainda tão idealista quanto rechonchudo e calvo (perdão ai, amigo, a inconfidência). E não é que ele acabou por me convencer a subir em um palco e ser "estrela" novamente?

Como nos bares, sarjetas, centros culturais e praças de Marília, Vera Cruz e adjacências dos anos "um, nove, oito, zero, 1980", vamos juntar letras, desalentos e sonhos (tanto os já irremediavelmente perdidos quanto os ainda não). Criamos um roteiro fuleiro e vamos começar a ensaiar um troço qualquer chamado 25 anos de estradas, canções e rabiscos. No final de julho faremos duas apresentações, uma em Itu, num festival cultural de inverno que ele está coordenando no TEMEC (Teatro e Escola de Música Eleazar de Carvalho), e outra em Salto, no Centro Cultural Barros Jr. Em agosto deveremos encerrar a temporada nostálgica, no Ponto de Cultura FASAM (Familiares e Amigos da Saúde Mental).

Estou seriamente desconfiado que essa nostalgia é mesmo um jeito bem bacana de (re)contar histórias, sobretudo as inventadas, noves fora as verdadeiramente acontecidas, que no mais das vezes carecem mesmo de permanecer no limo da existência, para o bem de nossa própria atual sobrevivência.

Fazer o quê, se (re)contar histórias parece mesmo ser a nossa sina e nossa danação (ôps, queria dizer salvação)?



Escrito por Marcos Pardim às 10h05
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   Para Tchdyo, Kawai, Awassori, Caterê e Indian

foto: Iara Bortoluci - Assessoria de Imprensa da FASAM

No final do mês de março foi sancionada uma lei que inclui na grade curricular das escolas públicas e particulares de nível fundamental e médio o ensino obrigatório de História e Cultura Indígena Brasileira, com prazo de adequação até o ano de 2010.
O Ponto de Cultura FASAM, onde atuo como diretor cultural, possui uma parceria com a aldeia Kariri-Xocó, da cidade alagoana de Porto Real do Colégio, e através dela realiza ações culturais que permitam o resgate e a preservação da cultura indígena.
Uma ação da Secretaria Municipal de Educação da cidade de Salto, município vizinho à Itu, cidade sede do Ponto de Cultura FASAM, propiciou a realização do projeto “Resgatando a Cultura Indígena Brasileira”, que está sendo desenvolvido e foi elaborado em três etapas.
A primeira delas foi a apresentação do programa a todos os professores da rede municipal de ensino, mediante palestras e apresentação de vídeos e power-points relativos ao tema. Todos os professores saíram do encontro com uma apóstila, organizada pela psicopedagoga da FASAM, contendo uma série de atividades que deveriam ser aplicadas com os alunos nas fases pré e pós as oficinas do projeto visitarem as dez escolas envolvidas no programa.
Na segunda parte, realizada de 26 a 30 de maio, uma oficina especialmente preparada atendeu cinco CEMUS – Centro de Educação Municipal -, contemplando os alunos do período vespertino, uma opção da própria Secretaria, já que um outro projeto, ligado ao meio ambiente, havia sido apresentado aos alunos do período matutino.
A oficina tem duração aproximada de 3 horas e constitui-se da seguinte programação: Hino Nacional em Tupi-Guarany cantado pelos alunos do Coral da FASAM; entrada do pajé e mais 4 indíos kariris-xocós numa dança que simboliza a saudação; apresentação e explicação de usos e importância de objetos indígenas; encenação teatral da Lenda da Mãe D’água, com a participação de alunos de Teatro, indígenas e dois alunos contadores de histórias da formação de griôs da FASAM; perguntas dos alunos aos indígenas; explicação sobre a importância e a utilização dos maracás; distribuição de maracás aos alunos; dança final, celebração conjunta de alunos, professores e indígenas.
Em sua terceira etapa, os alunos desenvolvem tarefas pedagógicas sobre a oficina e os professores respondem a um questionário avaliativo.
Outras cinco unidades de CEMUS serão atendidas na última semana de agosto, quando também acontecerá uma apresentação pública, na Praça XV de Novembro, uma das principais praças de eventos de Salto.
Nesta primeira etapa do projeto, foram atendidos 1200 alunos, 46 professores, 34 funcionários e 19 profissionais com cargos de direção e equipe pedagógica. O projeto também atraiu grande atenção da mídia, tendo sido inclusive pauta de uma generosa matéria da TV TEM (afiliada regional da TV Globo), que serviu de fechamento para uma das edições do jornalismo regional no dia 31 de maio. Finda esta primeira etapa, a avaliação entregue ao Ponto de Cultura pela Secretaria da Educação destacou a qualidade e a seriedade do projeto, além de sugerir uma visita de alguns professores à aldeia e a realização de um projeto de Cultura Afro.



Escrito por Marcos Pardim às 21h23
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   EM NOME DO PAI, DO FILHO E DO AVÔ

Noite:

O pai, após ausência que dura o dia todo, chega à casa. Ao beijar o filho, que se prepara para deitar-se, ouve dele um recado: Pai, o vovô pediu pra você ligar pra ele.

Manhã:

O pai, fazendo as vezes do filho que também é, faz aquilo que o recado dado na noite anterior recomendara. Bença, pai. Deus te abençoe. O senhor queria falar comigo? Queria, sim, filho. Por favor, passe aqui, pegar o doce de abóboras que te fiz ontem.

Tarde:

Sentado à mesa da cozinha, o filho recolhe das mãos do pai a vasilha com o doce de abóboras, o mais delicioso dos doces de abóboras que possa haver. O velho pai, ainda um tanto debilitado pelo infarto e pela cirurgia de poucos meses, apertando o peito com os dedos da mão direita, cacoete que adquiriu após a operação, diz: há dias que venho dizendo querer fazer doce de abóboras pra você. Duas vezes, fui comprar mas não encontrei abóboras bonitas. Ontem, achei. Experimenta, filho, vê se ficou do jeito que você gosta...



Escrito por Marcos Pardim às 21h59
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   UM COMENTÁRIO QUE MERECE SER POST

"... quando amamos com olho de menino o pôr-do-Sol todo rosa&violeta, quando nos empenhamos no dever de casa com letrinha caprichada e uns cachinhos de borracha aderidos nas emendas dos grampos, quando antecipamos sorrindo um almoço, quase sempre igual, de bife com batata frita, arroz e feijão, quando contamos vantagens inocentes pros coleguinhas e ouvimos, ENTUSIASMADOS, as histórias que nos contam... não é preciso procurar sentido em mais nada. Basta amar, odiar, dar pulos, tocar, abrir os olhos. Pensar, como dizia o Pessoa, é estar doente dos olhos. Essa doença convoca a idéia de futuro e de sentido e pronto... acabou-se a Inocência."

Encontrei hoje esse texto acima em minha caixa de comentários. Me foi enviado por Lacques Jacan, um pseudônimo criativo e genial inventado por um leitor assíduo deste, como diria meu querido avô, "desconjuntado" blog. Sei pouco, quase nada dele. Apenas seu endereço e que se chama Cássio. Um dia, por aqui mesmo, ele me pediu um de meus livros. Enviei para ele, autografado, um exemplar de um todo rabiscado de crônicas: Que A Lua Habite o Papel.

No mais, gosto dele, sem nem ao menos tê-lo visto ou conversado com ele, quer seja por skype, celular, telefone convencional ou sem fio, msn, orkut & carai a quatro... Somente por aqui mesmo, via comentários e respostas. Também acho que ele deveria criar um blog. Jacanianas talvez fosse um bom nome. Este comentário, deixado hoje, sobre o texto de 23/05 (Tati canta porque é feliz), comprova isso.

Salve, Cássio. Salve todos os que por aqui passeiam com olhos & carinho & atenção. Esta coisa de internet e blog é mesmo uma coisa legal que só vendo.



Escrito por Marcos Pardim às 14h30
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