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FILOSOFIA ORDINARIAMENTE BARATA
felicidade não é - ou não deveria ser - um bem em si. ou em nós. felicidade é possibilidade. intenção. busca. procura. motivo. força-motriz. felicidade é inalcansável, muito embora avassaladoramente necessária. imprescindível. felicidade não existe para o aqui. para o agora. e não há nada de triste nisso. *** da série palavras um dia agrupadas e esquecidas no desmaio do tempo (e para não dizer que não falei do tempo, ontem, dia 18/11, essa quitanda virtual completou 4 anos de portas abertas).
Escrito por Marcos Pardim às 09h38
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HABEMUS PONTO(s)
Um dia, faz bem pouco tempo, em uma reunião da ASLe (Academia Saltense de Letras), a diretora de cultura, Vânia Barcella, fazia-se presente. Entremeado a um comentário que fazia aos outros membros, sobre Conselhos Municipais de Cultura, perguntei a ela se havia (ou não) na secretaria da Cultura a ideia de criação de um deles. Ela me respondeu que não sabia existir, mas acreditava que não. Carolina Padreca, a mais jovem das ocupantes de uma cadeira da Academia, olhou-nos e disse: “Até que enfim, alguém pra tocar nesse assunto. Demorou...” Alguns dias depois, tomei a iniciativa de telefonar para Carolina. Propus à ela a ideia de um encontro de artistas, arteiros, fazedores, sabedores e consumidores de Cultura, para tratarmos de alguns assuntos, dentre eles um possível movimento para criação do Conselho Municipal de Cultura. Carolina topou. Agendamos uma data e local, e dividimos (desigualmente, é bom dizer, pois ela ficou com uma lista maior do que a minha) a tarefa de convidar algumas poucas pessoas, em princípio. Daí, para a criação do Fórum Permanente de Cultura foi um pulo. Tudo muito espantosa e gratificantemente rápido. Ao grupo, originariamente restrito, foram chegando novos atores, novos personagens, novas vozes, novas ideias, novos sonhos, novas esperanças - e, para não haver dúvidas, velhos problemas. Tem nada, não. Protagonismo e autonomia só se dão mesmo com empoderamento. E a vida segue seu rumo, alheia a nós. Se bobearmos, outros se empoderam. E nem sempre com os princípios e valores humanos do protagonismo e da autonomia. Viver é perigoso, já disse um dia Guimarães Rosa. A partir do Fórum, foi possível, sem perder o foco das dificuldades, tratar de alguns assuntos imprescindíveis para uma boa gestão de política pública cultural: o edital aberto para novos Pontos de Cultura; a realização da I Conferência Municipal de Cultura, o movimento pela criação do Conselho Municipal de Cultura (cujo lançamento oficial se deu na Conferência, e lugar melhor e mais emblemático não poderia haver), etc. E os frutos desta árvore ainda tão pequena de nossa luta eterna já começaram a aparecer. Nosso Fórum tem motivo hoje para celebrar, comemorar, brindar: habemus Pontos. Hoje, dia 16 de novembro de 2009, Salto foi contemplada com a habilitação de três Pontos de Cultura. Os projetos Ponto de Cultura Corporação Musical Barros Júnior, Anselminhos, Pagadores de Promessa e Corpo de Baile Cidade de Salto, entre mais de 1200 de todo o Estado, estão na lista dos 300 escolhidos pela comissão julgadora e se juntam aos já 175 outros existentes, para fazer parte da Rede Estadual dos Pontos de Cultura. Para que o motivo de nos alegrarmos seja ainda mais contundente e regionalizado, a FASAM – Ponto de Cultura Para Todos os Especiais, de Itu, ganhou também o edital de Pontões de Cultura, e a vizinha cidade passou a contar com mais um Ponto de Cultura: a UNEI (União Negra Ituana), cujo trabalho é mesmo elogiável e seus representantes, pessoas valiosas, além do que Indaiatuba também teve o projeto Bolha de Sabão contemplado e prevê para 2010 a implementação de sua Rede de Pontos de Cultura, formada por mais cinco Pontos. Uma conquista e tanto, decerto. E que deve mesmo ser celebrada, sem no entanto perdermos de vista que, em verdade, ela é a senha que dá acesso para que Salto e região entremos definitivamente no conceito do programa Cultura Viva. Um programa exemplar de política pública cultural. Ele existe somente há cinco anos, mas já apresenta resultados extraordinários. O livro do secretário de Cidadania Cultural, Célio Turino, chamado Pontos de Cultura – O Brasil de Baixo pra Cima, lançado oficialmente no último dia 11/11, faz-se leitura obrigatória para quem se pretende protagonista cultural. A Cultura, já cantou Jorge Mautner, é a melhor e mais generosa maneira de se praticar a desobediência civil. Habemus Pontos, saltenses. Como analogia ao título, imaginei as chaminés de algumas indústrias saltenses dos anos 50/60/70 soltando fumaças, em uma espécie de anunciação vaticana. Não há mais este tempo. Sequer há a maioria destas fábricas, conseqüentemente as suas chaminés. Não tem importância. A gente inventa. Nós somos mesmo um povo culturalmente bem capaz de inventar. O que quisermos – até um país diferente, quiçá melhor. Para isso, antes, é preciso um bairro diferente, uma cidade diferente, um Estado diferente. Antes, ainda, um Eu diferente. Quiçá, melhores. @FIM, Corporação Musical Barros Júnior e Corpo de Baile, entidades proponentes dos projetos premiados, devem se congraçar ao outro projeto saltense que também concorreu: Festival de Música Amiga FM. Não é, certamente, um edital que transforma qualquer entidade ou programa em um Ponto de Cultura. Somos nós mesmos. Nossas escolhas e nossas ações. Vocês da Amiga FM, batam no peito e digam: somos, sim, Ponto de Cultura. Repito: habemus Pontos. Agora, que venham Conselho Municipal de Cultura, Fundo Municipal de Cultura, democratização de acesso e de fomento ao Fundo e, quem sabe um dia Salto, quem sabe um dia, a nossa Rede Municipal de Pontos de Cultura e a Escola de Cultura, Artes e Cidadania Anselmo Duarte. A fumaça imaginária de nossa chaminé inexistente anuncia a boa nova: habemus Pontos.
Escrito por Marcos Pardim às 17h59
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CONTANDO HISTÓRIA (CONT. DO POST ANTERIOR)
No local e hora combinados, cheguei. Anselmo Duarte já estava e antes mesmo que eu comentasse qualquer coisa sobre isso, foi logo sugerindo que a entrevista mudasse para outro local: um bar, para onde nos dirigimos. Lá, por cerca de quatro horas, conversamos. E bebemos, também. Não muito, mas o suficiente para manter a conversa num nível mais informal. Eu era editor de uma revista mensal de Cultura. Sob minha responsabilidade tinha um Ensaio na última página e o Perfil, o qual preenchia as duas páginas centrais. O daquele mês era com o cineasta, que havia algum tempo estava de volta à cidade natal. E Anselmo falou. Muito. Contou coisas, casos, "causos". Histórias e estórias. Enfim, foi Anselmo Duarte em seu melhor personagem de si mesmo. A cidade acabara de lhe conceder mais uma homenagem, inaugurando um Cineclube e dando a ele o seu nome. Discorreu sobre isso também. Elogiou algumas coisas e criticou outras. Foi duro, sobretudo, com relação a algumas falhas que julgara terem sido cometidas quanto à algumas conquistas para o Cineclube por meio do Consulado do Canadá. Isso o havia deixado muito chateado. Como o Cineclube em si não era o tema da entrevista, resolvi não me aprofundar nisso. Em determinados momentos, tal o grau de informalidade, perguntei a Anselmo se aquilo que dizia era uma conversa em off ou se poderia usar na matéria. Pouquíssimas coisas recomendou ser necessário mantê-las entre nós, como conversas de bar. Ao editar a matéria, por óbvia carência de espaço, tal a profusão do material coletado, optei por deixar de fora algumas das críticas, quer fossem elas mais específicas à Cultura ou à vida em geral. Alguns dias após a revista ter saído, por intermédio de um amigo, recebi uma carta de Anselmo Duarte. Uma carta extensa e escrita de próprio punho. Nela, Anselmo fazia reparos à matéria. Dizia que eu havia cometido algumas inverdades, escrito coisas que ele não falara ou, ao menos, teria sido mal interpretado. Em alguns trechos, em verdade, ele era bastante duro nas considerações, dizendo que não esperava aquilo de mim. Fiquei sem saber se a carta era particular ou se endereçada à revista. Procurei por Anselmo. Ele riu muito. Desconversou, contou mais histórias e me disse para não dar importância à carta. Ela era apenas uma espécie de tentativa de amenizar um pouco o mal-estar causado com algumas de suas críticas, notadamente na prefeitura e na Secretaria da Cultura. Retruquei, dizendo, em minha defesa, que não havia feito aquilo que a carta dizia eu ter feito - e ele sabia disso muito bem. Esquece, releva, respondeu-me Anselmo. E me levou à uma pastelaria, cujos pastéis ele muito apreciava. E eram mesmo muito bons. Dias depois, fiquei sabendo que as critícas de Anselmo não ficaram restritas à carta. Novamente o procurei. E fiz ver a ele a importância de torná-la pública, para meu próprio bem e da revista para a qual trabalhava. Anselmo discordou. Pediu que eu não a publicasse. Insistiu que, por vezes, alguns "jogos de cena" são necessários, mas que não passavam de problemas menores. Discordei. Publiquei a carta, na íntegra. Embaixo, um P.S. esclarecia que, muito embora, o entrevistado fosse merecedor de toda a minha reverência, minha admiração e meu respeito, o editor mantinha, por convicção e exercício ético da profissão, tudo aquilo escrito anteriormente. Nenhuma ilação fiz, em meu P.S., ao que ele havia me dito posteriormente ao envio da carta. Se assim o fizesse, imaginei, aí sim seria leviano ou mau profisssional. Por algum tempo, Anselmo me evitou nas poucas vezes em que nos encontramos. Aqui ou ali ouvia um comentário ou outro, que diziam ele havia feito. Um dia, alguns anos depois, em um churrasco na casa de um amigo em comum, sentado em uma mesa que não a dele, recebi o recado de que queria falar comigo. Senta aí, ele me disse. E ao casal que nos recepcionava, e que sabiam do ocorrido, ele disse: ele estava certo, agiu como deveria mesmo ter agido. Apenas sorri, e perguntei a ele sobre um problema de saúde que soubera ter tido. Não sei se ele não me ouviu, ou se fingiu não ter ouvido. Contou-me mais uma de suas estórias. E depois outra...
Escrito por Marcos Pardim às 21h20
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CONTANDO HISTÓRIA (EM MEMÓRIA A UM GRANDE CONTADOR DELAS)
O enredo é por demais conhecido: morre uma pessoa famosa, e o que mais se ouve ou se lê são depoimentos que exaltam as tantas e valiosas virtudes demonstradas em vida – muitas delas, sejamos sinceros e honestos, em verdade, inventadas ou superdimensionadas. Tive, e tenho, poucos ídolos. Todos falíveis e dados a um ou outro deslize, graças a Deus. A respeito disso, gosto de me lembrar de uma passagem contada por um amigo já falecido: o escritor Caio Fernando Abreu. Em final dos anos 1980, começo dos 1990, o cineasta Guilherme de Almeida Prado acalentou o projeto de filmar o romance Onde Andará Dulce Veiga? Regina Duarte havia sido convidada a viver na telona a personagem que dá título à obra de Caio F. Abreu. O escritor, declaradamente fã de Caetano Veloso, sugeriu convidá-lo a compor a trilha sonora do filme. Caetano Veloso fazia temporada de shows. Escritor, cineasta e atriz foram assisti-lo e se dirigiram ao camarim do cantor, a pretexto de efetivar o convite. Caio me contaria depois o tamanho de sua decepção, de seu desencanto e sua tristeza com o ídolo – para negar-se ao convite, Caetano fora desrespeitoso e grosseiro. Decerto que a desilusão não era pela negativa em si, mas pela forma como ela havia se dado. “Ídolos, melhor não tê-los. Em tendo-os, melhor não conhecê-los”, me citaria Caio. O que falei ao amigo então, ainda continua valendo como regra de minha conduta. Não me incomodo com as mazelas humanas de meus poucos “mestres” – que é como prefiro denominar meus ídolos. Aliás, isso me faz admirá-los ainda mais. Eu os vejo humanos, erráticos, capazes de mesquinharias e injustiças (quer sejam por gestos ou atitudes), mas ainda assim capazes de criarem coisas tão geniais e imprescindíveis. Não creio na “santidade” humana nem na perfeição – que imagino deva ser, assim como a sabedoria ou a felicidade, algo a ser buscado, sempre, mas sem perder a perspectiva e a certeza de que inatingíveis. Mais uma vez, pensei nestas coisas ontem, por conta da morte de Anselmo Duarte, o mais ilustre dos saltenses. Estive em parte do cerimonial que antecedeu ao seu sepultamento, cerimonial este que se deu no saguão da Sala Palma de Ouro, teatro que faz parte do recém inaugurado complexo do Centro de Educação e Cultura de Salto. Tive a oportunidade de viver, quase à mesma época deste envolvendo meu amigo Caio, um episódio com Anselmo Duarte que me serve ainda mais para contextualizar esta minha maneira de enxergar ídolos e famosos. Em um outro post, para não me alongar neste, contarei o ocorrido. Com a única intenção de homenagem e de respeito a este saltense, nascido em 1920 numa Salto não mais do que um pequeno vilarejo, que foi capaz de se tornar o único brasileiro a ganhar o prêmio maior do Festival de Cannes, na França: a Palma de Ouro. E isto com uma obra genuinamente brasileira: O Pagador de Promessas, adaptação cinematográfica da dramaturgia de Dias Gomes.
Escrito por Marcos Pardim às 11h41
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DE IMAGENS E DE FATOS
Há uma lógica infalível na inevitabilidade. Por conta disso, os fatos se sucedem. E nos são, quase na sua totalidade, indissociáveis da imagem. Basta um simples celular, seja ele pré ou pós. Não obstante, uma tal e infame caneta espiã - todos os dias, ao abrir a internet, ela está lá, em destaque, à mostra e à venda. Ao vê-la e identificá-la sendo usada para os fins que imagino sejam, juro que fico constrangido e penso: meu Deus, a que ponto chegamos? Qualquer um de nós possui a disponibilidade de um click. De uma gravação. A imagem banalizou-se. Penso nos fatos em si mesmos. O que seriam, sem as imagens? Dariam "ibope"? Nos chamariam à atenção? Não nos bastariam enquanto idiossincrasias ou meras circunstâncias humanas, demasiadas e inevitavelmente humanas? Olho algumas das imagens, outras, sei apenas de ouvir contarem. Corpos carbonizados de crianças; helicóptero em chamas, após ter sido abatido em pleno voo; um cadáver "cuidadosamente" arrumado dentro de um carrinho de compras (talvez, o mais expansivo, violento e chocante "toque" do quanto de mercadoria estamos nos deixando tornar); a foto de um moço reluzindo-se em um clarão que explode em seu rosto, cuja história nem preciso ler para saber a desgraceira que é; as pernas de fora da moça na faculdade, que desencadearam um linchamento moral e quase a tragédia de um físico... Sei não, mas acho que vou ficar quieto aqui mesmo, ouvindo os arranjos simples e a voz doce de Maria Gadú cantando Tudo Diferente. Que, provavelmente, querem me "dizer" alguma coisa.
Escrito por Marcos Pardim às 11h04
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AINDA E MAIS UMA VEZ OS RITOS DE INICIAÇÃO: ADULTÉRIO
A mesma moça, linda, é casada, e está cada dia mais linda, mais marota, mais atrevida, nos gestos e no vestir-se, As pessoas reparam, as pessoas comentam, E outras coisas mais, as pessoas comentam, reparam, Dizem que a moça, linda, é casada, ô, e tem amantes, juram que é verdade, Coitado do marido, tão bom, tão sério, tão honesto, E dizem mais, e reparam mais, Que o marido, tão moço ainda, anda a definhar-se, aspecto frágil, olhar perdido, Até parece doente, o coitado, Talvez, especulam alguns, a moça, muito marota, muito atrevida, fogosa, esteja o deixando assim, Mas há quem desconfie, torça o nariz, e ache que de tal sorte o marido, tão moço, não desfrute, Que mais certo mesmo, é que a moça, linda e namoradeira, esteja a deixá-lo à mingua, E ele, moço, corno, frágil e afeiado, seja o único a não saber, Vítima que foi, ah, moço, pobre moço, de uma poção, de uma beberagem, chá da "cegueira", própria dos que não querem ver, infusão à base de raspagem dos ossos de um defunto, extraídos sorrateiramente em noites de lua cheia, cemitério vazio, altas horas orvalhadas, que é tiro e queda, A mulher prepara, e o homem toma, Pronto, jamais, nunca, sob hipótese alguma, lhe será dado conhecer a verdade, dolorosa e incômoda, Que a moça, linda, nem disfarçar, disfarça mais, cada dia mais linda.
Escrito por Marcos Pardim às 13h51
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DOS RITOS DE INICIAÇÃO
A moça, linda, descalça, veste um vestido florido, daqueles de algodão, de um algodão fininho, curto, com botões na frente, de cima a baixo, os dois últimos desabotoados, pernas à mostra, dependendo do movimento, mais do que pernas, Os cabelos, negros, soltos, a moça, vira e mexe, prende e solta, com as mãos, Precisa de ajuda, a moça, quer que o menino a ajude a tirar água da cisterna, A manivela feita de madeira range, a corda, enquanto a lata d'água sobe, carregada, também range, Algumas latas cheias depois, que o menino ajuda a moça a despejar dentro de um enorme tambor, a lida finda, Do outro lado do quintal, a moça aponta, um pé de jabuticaba, cheinho, cheinho, carregadinho, carregadinho, O menino colhe, a moça, sentada na mureta que circunda a cisterna, faz do vestido, bacia, e o menino se inicia, delicia.
Escrito por Marcos Pardim às 16h46
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ACHADOS E PERDIDOS
Dentro de uma pasta azul, envelhecida, há papéis amarelados. Em um deles, em letras miúdas datilografadas em uma Remington 125, está escrito, sabe-se lá o por quê: Tudo que não sei fazer, desaprendi. Por isso, faço. Não para ver se aprendo, mas apenas para passar o tempo. Quem quiser desfazer, desfaça. Sempre é tempo. Embaixo, a data: julho/84.
Escrito por Marcos Pardim às 16h33
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FEBRES
Meu filho tem febre. Daquele tipo que o prostra sobre a cama, enfraquecido, com o ar desolado e parecendo perdido, olhar fixo no nada, que eu, silenciosa, secreta e temerariamente, desconfio seja mesmo onde vamos dar, com ou sem coragem, com ou sem fé. É tudo tão prosaico. Tão ternamente prosaico. Até o ato de medicá-lo: antibiótico, descongestionante, antitérmico. Tudo tão prosaicamente igual, geração de pais e filhos após geração de pais e filhos. Uns deitados, frágeis e necessitados de cuidados e outros, ao lado da cama, ternos e cuidadosos, não obstante também sub-repticiamente frágeis e carentes de cuidados, daqueles que quase nunca mais vêm, talvez porque nunca tenham de fato existido. Ao fechar a porta de seu quarto, meus pensamentos vagueiam. Minha lembrança alcança um amigo me contando uma parábola bíblica linda, sobre a diferença de se quebrar pedras ou se construir um templo. Um amigo artista, famoso, muito embora ele ria disso e ache tudo uma grande, uma imensa ilusão. Existir, também, meu amigo, pareço ouví-lo dizer. O que, em verdade, ele já me disse, também me lembro, foi dissertar sobre os variados estados febris a que nos acometemos. Que pena: me esqueci, como a quase tudo me esqueço, de que estados febris ele exemplicava. Sei, sem precisar do recurso da memória, apenas da sensação redentora da pungência e da poesia que as palavras causaram, causam... Volto ao quarto de meu filho. À maneira tradicional e humana, passeio as costas de minhas mãos em seu rosto e em sua testa, na tentativa de medir-lhe o grau de febre. Se ele não delira, graças a Deus, deliro eu, enquanto ele dorme: Há uma febre no medo que embora queima e arda, é capaz de lufadas repentinas de frio, impondo a necessidade do encolhimento em si mesmo. Há uma febre no desejo, na paixão, que, embora queima e arda, é capaz de lufadas contínuas de frio, o análogo frio do medo, estremecendo a necessidade do enredamento em ti.
Escrito por Marcos Pardim às 19h45
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DA IMPORTÂNCIA DE SE (RE)INVENTAR
Vou tirando as coisas do carrinho de compras e colocando-as sobre a esteira do caixa, a moça, um a um, registra os itens que, antes de comprá-los, listei para não esquecê-los, Empacotando-os, um moço com aquele rosto marcante de quem é especial, certamente contratado na cota dos deficientes, canta uma canção, daquelas que só possuem melodia, não têm letra, e que se canta como quem quer ninar-se, com carinho e profunda ternura, Entrego o cartão, a moça efetua o recebimento, e o moço continua a canção enquanto ajeita os pacotes no carrinho, para que eu os leve até o carro, A canção que você está cantarolando é linda, foi um imenso prazer ter vindo aqui, hoje, fazer minhas compras, ouvi-lo me foi um presente, obrigado, como se chama essa canção?, digo-lhe, Ele sorri, parecendo espantado com o meu comentário, e me responde: não sei, inventei...
Escrito por Marcos Pardim às 13h30
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AFASTE ESSE CÁLICE DE NÓS...
Para você, Ian e Ingrid o que são? Nomes? Talvez seja isso mesmo o que sejam. Dois nomes que a contemporaneidade deu de presente para que pais, felizes, registrem seus filhos. Mas podem ser algo mais. Mudo então a pergunta: Ian e Ingrid são nomes que lhe dizem alguma coisa? Ian e Ingrid tinham, respectivamente, 12 e 10 anos. Estiveram nas capas de todos os jornais do último final de semana. Foram pauta de matéria na nossa principal rede de TV regional. Ian e Ingrid eram duas pessoas. Duas crianças, cujos corpos foram encontrados, empilhados, em meio aos escombros daquilo que restou do que antes era a residência deles – e da família deles -, após terem sido assassinados e carbonizados, num incêndio proposital. Barbaramente proposital. Como se já não houvesse sido suficientemente bárbaro o fato dos irmãos Ian e Ingrid terem sido espancados e amarrados, antes de serem assassinados. Ainda cabe uma ou outra pergunta: essa é uma cena que lhe parece ser comum? Essa é uma cena que lhe parece ser banal? Se a sua resposta for não, intuo que também concorde que passou da hora de Salto dar um BASTA a este espectro de violência e estupidez humana que insiste em nos rondar – não é de hoje, e os exemplos têm se feitos insistentemente vários. Primeiro, segundo e terceiro setores, sociedade, todos que resistimos e teimosamente acreditamos no humano que ainda há de haver em cada um de nós, devemos nos unir e, conjuntamente, baseados na cultura, na educação e na cidadania, idealizarmos e praticarmos ações e programas teóricos e práticos que possibilitem coibir e diminuir esta seqüência dantesca de barbárie explícita. E não nos venham com “toques de recolher”, com guaritas e cancelas. E não nos venham com discursos fáceis de que este é um problema “apenas” de uma determinada classe social. Não é mais possível (se é que um dia foi) aceitarmos que violência e seu entorno sejam as únicas maneiras de se acreditar como vias juvenis de inserção ou de números estatísticos que recheiam os gráficos da morte. Isso é pouco, senhoras e senhores dignos e indignados. Isso é muito pouco. Que a barbárie, por ser intrinsecamente humana, nos espreite, parece-nos incontrolável. Agora, aceitarmos que ela nos açoite, nos cuspa na cara e nos transforme inapelavelmente em meros espectadores de seu horror, seria resignarmos com a impotência e o conformismo covardes, com a nossa triste constatação de que falhamos grotescamente em nossa tentativa da busca imprescindível de civilidade. Cidadania não deve ser um conceito compreendido somente individualmente. Uma comunidade, um povo ou uma cidade também necessita lutar por ela. Salto, receio, esteja precisando pelejar corajosamente pela sua. Ian e Ingrid podem ser somente dois nomes que pais escolhem para batizar teus filhos. Mas podem também ser possíveis jeitos de se denominar um grito de socorro, um grito de socorro pela sobrevivência daquilo que possamos chamar de humanos no que ainda resta de nós. BASTA!!! Façamos silêncio em respeito a nós mesmos. Na seqüência, partamos para a atitude de restituirmos a cidadania que nos tem sido roubada. Antes que seja tarde demais.
Escrito por Marcos Pardim às 15h03
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DE E PARA GENTE ( E PRECISA DE MAIS?)
"O velho pai do meu pai De velho ficou demente Na cara só tinha prega Na boca não tinha dente Mais ainda se alegrava Quando a velha lhe mostrava A forma de fazer gente..." [autoria desconhecida] Por e-mail, com a intenção de desejar-me um bom final de semana, Cássio Mattar (que nós aqui do Caraminholas conhecemos por Lacques Jacan) me mandou esta pérola da cultura popular. Para quem gosta de gente e, por acaso não entende bem o por quê, estes versos dão-nos bem um caminho para que saibamos, sem pestanejar... Ademais, essa cultura de autoria desconhecida é sempre um tiro certo (por sinal, Tiro Certo é o nome irônico de um dos guardas da prisão onde o rei manda prender Frei Duck no genial desenho animado Robin Hood). Sabedoria em estado puro. E desconfio que em estado líquido também... Viva a Cultura! Popular ou Erudita é só um rótulo. Vale mais mesmo é a riqueza nossa de cada dia. A nossa riqueza cultural!!! Obs: e atentem aí, meus poucos e bons amigos leitores, para o prazo de 31 de outubro para a realização das Conferências Municipais de Cultura. Agitem as secretarias de cultura de onde vocês vivem. A Cultura brasileira está dando um show. Participe dele você também. Use seu afeto para potencializar o que de bom a politica nacional está produzindo.
Escrito por Marcos Pardim às 16h13
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RASPAS DO TACHO
quando aparecia, e, mais dia menos dia, aparecia, parecia dia santo, muito embora nunca sabia se era, ou não, santo dia e ao referir-se, outro termo mais justo e exato não havia: aparecia. de aparição cruzava o limiar da porta da cozinha, ia dar com os olhos e a vista do que deles resultava no alpendre, olhava prum lado, olhava pro outro, e com pés miúdos e quase sempre descalços, caminhava para o quintal, jogando milhos pras galinhas aconselhável seria não haver vento, muito menos ventania, pois que se um ou outro houvesse, daria correria, acode que vai ser levada pelo vento, corre que a ventania vai fazê-la voar mas nem vento nem ventania puderam com ela foi arrastada mesmo pela ampulheta do tempo alice.
Escrito por Marcos Pardim às 21h08
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EI, TÁ QUASE AMANHECENDO. VAMOS?
bateu-lhe à janela. pensou não atender. esgueirou-se por debaixo da porta. roçou-lhe até sentir eriçar pêlos e pele. cochichou-lhe palavras, algumas ternas, outras, ásperas, coruscantes. pegou-lhe as mãos. colocou-lhe de pé. sacudiu-lhe as vestes amarrotadas, botou-lhe foco no olhar perdido, soprou-lhe a face. era bom. era bom, não. era tão bom. pensou ser vento, pensou ser brisa. não era. era o bafejo, o sopro lispectoriano de vida. lá fora, ainda o medo a espreitar, mas também o habitat natural daquilo que não se explica, existe. e só. e basta. bom dia. disse-se.
Escrito por Marcos Pardim às 20h50
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(...) SEGUNDO PARÁGRAFO, TRAVESSÂO...
Antes, e por mais que houvesse, e havia mesmo, uma avenida coloridíssima por ipês, passeariam, sorririam, gargalhariam, recolheriam folhas multi-cores espalhadas pelo chão, jogando pétalas um no outro. Ainda antes, mas por que também o passeio, muito embora feliz, acabaste, cada um seguiria, tal qual bandeirantes desbravando caminhos, coincidentemente desencontrados, um sentido capital, outro sentido interior, procurando um jeito de estender o agora, fazendo dele a melhor maneira de distanciar ou de espantar um possível depois. Por ora, esteja com Deus, boa sorte, sê feliz e até depois, se depois houver, poderia ser o resumo da ópera, que a agulha arranha na vitrola de cada um. E eu, tal qual um confidente anônimo, registro e transformo em rascunho aquilo que, por si só, não passa disto mesmo. *** se você, leitor(a), aceitar uma sugestão de trilha sonora para este post e para o imediatamente abaixo deste, cutuca aqui: http://www.youtube.com/watch?v=d36q0ZjPMZQ
Escrito por Marcos Pardim às 15h46
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