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DAS DELICIOSAS PERALTICES
Em dias assim, e já faz tempo, é comum se dizer que "há um sol para cada um", e banhar para refrescar-se, mais do que uma diversão, é uma necessidade, Meninos, os amigos, protagonistas de um tempo em que ser menino de rua era única e tão-somente ter a liberdade da rua como companhia diária e prazerosa de convivência e exercício de amizade, tinham nas represas, nos lagos e nos riachos opções, vira e mexe perigosas, pois que um menino ou outro, por descuido natural da infância, afogava-se, Mas os meninos não descartavam, se encontravam, combinavam e, por caminhos alternativos, em meio à matas e trilhas, escolhiam uma represa, um lago ou um riacho e para lá seguiam, lépidos e felizes, Em meio ao caminho de uma dessas represas, distante de onde os meninos faziam morada, havia um pequeno sítio, por onde podiam cortar caminho, e o sitiante deixava a pastar um burro ou um cavalo, e os meninos, por óbvia aptidão à peraltice, planejavam montá-los um dia, Até que a chance deste dia resolveu aparecer e os meninos saltaram por sobre o lombo do burro e para a represa rumaram, intentando voltarem a um tempo que não permitise ao sitiante dar pela falta do animal, mas o acaso, por vezes, conspira contra, e o burro, na volta, resolveu fazer valer o que um velho adágio diz e empacou, sem dar o mínimo sinal de que daquele lugar pretenderia sair um dia, Mas tapas e empurrões vários depois, ainda que em uma lentidão exasperante, o burro retomaria o caminho de volta, não sem antes começar a anoitecer, e os meninos haveriam de devolvê-lo ao local na presença de seu dono, um senhor irado e com um arreio à mão, ameaça de queixar-se à delegacia, por furto, e impropérios tantos que, somente àquele momento, um rosário deles, de conhecidos ou desconhecidos, foi dado aos meninos conhecer e usá-lo na sequência do tempo, da vida, que seguiu e segue seu rumo ou destino, por vezes empacando, tal qual o burro "roubado" na infância em um dia de verão que banhar-se em uma represa havia de ter sido um jeito menino de se assobiar uma canção para a existência que se nos anuncia todos os dias.
Escrito por Marcos Pardim às 15h56
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Enquanto o ócio não se manifesta com as condições necessárias que me permitam rabiscar e juntar palavras com algum sentido literário, fiquem com um pouco mais sobre os Pontos de Cultura, desta feita tema de debates e discussões no 10. Fórum Social Mundial, realizado semana passada na grande Porto Alegre.Pontos de Cultura e articulação social: estratégias para um Novo MundoPontão Ganesha  Em 27 de janeiro, terceiro dia do 10° Fórum Social Mundial (FSM), os Pontos de Cultura e a articulação entre os povos da América Latina ganharam espaço na diversificada programação programada para o Fórum. Sugerida e organizada pelo Pontão CUCA (Centro Universitário Cultura e Arte), da União Nacional dos Estudantes (UNE), e mediada pelo estudante Felipe Redó, a discussão foi rica em declarações que enalteciam a importância dos Pontos de Cultura no processo de mudanças políticas, sociais e culturais desejadas pela sociedade e evidenciadas durante o FSM. 
Na mesa, os debatedores Célio Turino (Secretário de Cultura e Cidadania do MinC), Maria Benites (Comissão Internacional de Cultura, coordenadora do programa acadêmico na Universidade de Siegen (Alemanha) e Presidente do Instituto Vygotskij), Jéferson Assunção (Secretário de Cultura de Canoas), Eduardo Balan (Articulação Latino Americana de Cultura e Política) e Jussara Cony (GHC – Grupo Hospitalar Conceição), se revezaram em declarações que a todo momento colocavam em foco as propostas essenciais do FSM: a diversidade, o respeito ao sujeito como protagonista e a necessidade de unidade para que um novo mundo seja possível. Ao abrir o debate, Felipe destacou que a intenção do CUCA ao promover o encontro reforça a certeza do Pontão sobre a necessidade de se buscar a articulação entre os movimentos sociais, sejam eles brasileiros ou não. Mais que simplesmente discutir o tema em encontros programados especificamente para esse fim, Redó destaca que cabe a cada movimento posicionar-se para ocupar um espaço que existe e que deve ser conquistado. “Se por um lado o Estado nos dá autonomia, por outro cabe a nós buscar o protagonismo nesse processo”, conclui. “ÁREAS LIBERTAS” Célio Turino concentrou sua fala no tripé sobre o qual todos os Pontos de Cultura devem sustentar suas ações: autonomia, protagonismo e empoderamento.
Ele discordou parcialmente da colocação feita por Felipe, explicando que mesmo que o Estado dê autonomia à sociedade, ela precisa conquistá-la, e que esse é um caminho demorado e, às vezes, doloroso. Com certeza é preciso que os movimentos sociais tenham autonomia, mas segundo afirma, o mais importante é que a queiram e saibam fazer uso dessa conquista. O protagonismo, segundo Turino, trata-se da disposição em falar na primeira pessoa, marcando posições e demonstrando sua própria visão de mundo. Da mesma forma que a autonomia, também não se trata de uma caminhada fácil, tanto que o grande objeto de dominação da sociedade é, de acordo com o Secretário de Cultura e Cidadania do MinC, o impedimento ao protagonismo dos sujeitos e, consequentemente, dos movimentos sociais. Já o empoderamento seria, a princípio, a transferência de poder do governo para as comunidades, mas no sentido “abrasileirado” da expressão passou a significar o caráter de transformação que cada pessoa pode ter. “É nesse veio que está acontecendo a grande revolução brasileira. Os Pontos de Cultura são, de certa forma, áreas libertas, e têm sentido como a continuidade da expectativa de um novo mundo possível; os Pontos têm a oportunidade e a capacidade de agir e transformar, tornando públicas suas narrativas das realidades locais”, coloca, para complementar que no processo da construção dessas narrativas cada um busca seu veículo, que tanto pode ser uma caneta quanto uma câmera de vídeo. Qualquer instrumento, nas palavras de Turino, pode ser utilizado para transcrever essa interpretação de mundo. Ao concluir suas colocações, Célio Turino foi contundente: “A morte de um ponto de Cultura é ele se submeter ao governo”, finalizou. DESENVOLVIMENTO E HUMANIZAÇÃO Em sintonia com o espírito das propostas lançadas já nas primeiras edições do Fórum Social Mundia l, as ações praticadas pelos movimentos sociais buscam aliar desenvolvimento e humanização. É dessa forma que Jussara Cony, Superintendente do GHC, define o projeto de ação do grupo, que reúne quatro hospitais, 12 postos de saúde e agrega, aproximadamente, 7000 funcionários. Em sua estrutura o GHC agrega 18 pontos de cultura, sendo 16 externos e 2 internos. São, segundo Jussara, espaços de inclusão social que alcançam não só os funcionários, mas as comunidades nas quais o grupo está inserido.“Esse é o nosso projeto: saúde e cultura juntas, como estratégias para a construção desse mundo novo”, explica Jussara. Desde a garantia de atendimento totalmente direcionado ao Sistema Único de Saúde (SUS), até a ida de médicos brasileiros para atendimento a vítimas do Haiti, o que impulsiona as ações do GHC é essa preocupação com a pessoa. “Fico feliz que estejamos vivendo esse momento de efervescência pela retomada histórica do protagonismo. E estamos fazendo tudo isso dentro do capitalismo, o que seria muito difícil de se acreditar lá na primeira edição do Fórum”, comemora, explicando que quando o GHS luta pela humanização do SUS e pela criação de pontos de cultura, é porque entende que a sociedade precisa dessa proposta humana em contraponto ao desumano do capitalismo. SEMENTES DE UMA NOVA SOCIEDADE Representantes não brasileiros na mesa do debate, Eduardo Balan e Maria Benites reforçaram a idéia de que os Pontos de Cultura são um diferencial na construção de políticas públicas pensadas a partir da ligação entre cultura, comunicação e educação. Entusiastas assumidos do modelo desenvolvido pelo Programa Cultura Viva, tanto Eduardo quanto Maria Benites acreditam que através do diálogo entre governo e sociedade é possível que se desenvolva uma mudança na realidade política e social, principalmente nos países da América Latina. “Sempre acreditei que se algo parecido com a Revolução Francesa fosse acontecer novamente, esse movimento nasceria no Brasil. A palavra revolução pode e deve ser entendida como um passo para se re-evoluir, e nesse sentido, não tenho dúvidas de que os Pontos de Cultura são verdadeiros “ovos de Colombo” para a verdadeira re-evolução social e cultural”, defende Benites.
Eduardo Balan expõe opinião semelhante. Para ele, os Pontos de Cultura representam a ferramenta mais avançada entre o público, o estatal e o comunitário. “São pequenas sementes de um estado novo e de uma nova forma de estado, que brotam em toda a América Latina”, explica. RESPEITO ÀS DIFERENÇAS
A nova realidade vislumbrada a partir do real entendimento entre governos e sociedade é a saída para que se evite uma cultura hegemônica, que revela e estimula a superioridade de um povo sobre o outro. Essa é, com certeza, a opinião recorrente entre todos os que participaram do debate no dia 27. O FSM e seus espaços de discussão buscam mostrar que a cultura tende a reunir os povos em vez de separá-los, e que existe espaço para as diferenças e especificidades que se desenvolvem. “Temos que nos ver como novos Galileus, que acreditam na existência de uma outra verdade e que não se acham o centro do Universo. É um privilégio viver nesta época, mas também uma grande responsabilidade”, finaliza Maria Benites. FONTE: Luciane Zuê
Escrito por Marcos Pardim às 14h10
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"E HOJE UM BATUQUE, UM BATUQUE COM A PUREZA DOS MENINOS UNIFORMIZADOS..."
Padeço de uma quase absoluta inapetência verbal quando me dou confrontado com algumas de nossas muitas mazelas. Notícia de morte de alguém próximo ou tragédias como esta última no Haiti, por exemplo. Sou acometido de mudez, no mais destas vezes, desconfiando da eficácia das palavras nestas horas. Mais impositivo faz-se o silêncio. Sobre o Haiti, cujo silêncio verbal rompe-se em mim agora, tudo que vi ou li foi pela internet ou por jornais e revistas. Há tempos perdi o hábito e o gosto por televisão. Não sinto falta. Decerto que várias vezes me emocionei; noutras, me indignei. Uma ou outra lágrima furtiva e inevitavelmente molhou o meu rosto. Mas nada me feriu tanto quanto o trecho de um texto que acabei de ler no sítio da Carta Maior (http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=16345), assinado por Gabriela Warkentin, diretora do Departamento de Comunicação da Universidade Iberoamericana, na cidade do México. No último parágrafo ela relata o momento em que um jovem haitiano, que buscava cadáveres, céticamente repreende o jornalista Pablo Ordaz, do jornal espanhol El País: "É verdade que irão contar? Ou se irão daqui quando já tiverem fotos suficientes?"
Escrito por Marcos Pardim às 20h44
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BRINCANDO COM COISA SÉRIA
Sei que a ironia destilada aqui pode resvalar no que costumeiramente se convencionou chamar de "humor negro". Mas, vá lá, pago para ver, corro o risco: 2010 começou com uma avalanche de críticas da mídia (leia-se Folha, Estadão, Globo, Bandeirantes, Editora Abril etc) sobre algumas conquistas da democracia. O uso do papel e de fitas não tem sido parcimonioso. Haja artigos, editoriais, comentários e reportagens contrários ao PNDH3 (Plano Nacional de Direitos Humanos) e à II Conferência Nacional de Cultura. O final de 2009 já sinalizava esta reação em cadeia, vide CONFECOM (Conferência da Comunicação), solenemente boicotada por estes órgãos - imagino que se sintam "constrangidos" em descer ao rés do chão dos debates e das discussões democráticas. Melhor mesmo é permanecer no pedestal de poder por eles mesmos criados e cuidadosamente incensados, mantendo-nos à distância. Liberdade nos olhos dos outros, ao que parece, é pimenta nos olhos deles. Sou um dos delegados eleitos pelo estado de São Paulo para, de 11 a 14 de março, em Brasília, participar da II Conferência Nacional de Cultura. Estou começando a sofrer calafrios. A julgar pelo tratamento furibundo e raivoso da mídia, um novo CCC está se formando no país: o Comando de Caça aos Conferencistas. Devemos ser os mais novos e perigosos "comedores de criancinhas" do pedaço...
Escrito por Marcos Pardim às 13h49
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ENSAIANDO UMAS LETRAS PARA IR DESENFERRUJANDO
Todo janeiro é assim: as águas invadem ruas, casas, cidades. Pessoas perdem seus bens. Pessoas perdem a vida. São Pedro, ainda que negasse três vezes, leva a culpa. Ano passado foi em Santa Catarina. Neste, no Rio de Janeiro e em São Paulo, estado onde vivo. Por aqui, as águas inundaram o Vale do Paraíba, destruindo considerável parte da cidade de São Luis do Paraitinga. Uma cidade linda. Culturalmente falando, então... Um patrimônio material e imaterial riquíssimo. Destruído. Uma tristeza. Mais ainda, porque conheço e admiro pessoas que por lá vivem e encantam. Notícias me chegam, via e-mail de Jacque Baumgratz, Mestre Brincante do Pontão de Cultura Bola de Meia, de São José dos Campos: "Mestre Lumumba disse que, por conta do dia de Santo Reis, o Santíssimo da igreja Central havia sido transferido, dias antes, para uma outra, localizada na parte alta da cidade, salvo portanto da destruição. Muitas bandeiras se salvaram na casa de Dona Rosa, grudaram na parede. Coisas que só quem possui muita fé pode levar em consideração. Sutilezas divinas!" *** Em um dos artigos que leio, na insana tentativa de me recolocar em dia com a vida que corre lá fora de mim, o autor fala criticamente de morros, encostas e especulação imobiliária. Há um certo momento, destaca as favelas no quesito de "formas de degradação da vida urbana". Fala ele em "favelização". O articulista é notório, jornalista veterano e tarimbado. Leio-o, costumeiramente. Nunca o vi, a respeito desse assunto, citar "condomínios fechados", "condominização", também como uma das "formas de degradação da vida urbana". Para mim trata-se de uma grande injustiça de percepção e leitura desta questão urbana. Ambos, favelas e condomínios fechados, colaboram tão triste e devastadoramente quanto. Além de serem, ao fim e ao cabo, resultados da mesma e cruel citada "especulação imobiliária". Afinal mesmo, o que vem a ser mais importante: o mercado financeiro ou um país? *** Meu primeiro dia útil do ano - em que espero não ser tão inútil. É manhã. Circulo pelos corredores de um "sacolão", puxando um carrinho pela mão. Apalpo as mangas. Escolho as peras mais macias. Separo alguns cachos de uva. Penso no que levar para uma salada de almoço: alface? rúcula? agrião? Seleciono alguns tomates, também seguindo critérios que levem em consideração a tal salada. Uma mulher me sorri. Diz: bom dia. Sorrio também. Retribuo o desejo de que o dia seja mesmo bom. O rosto dela me parece familiar, conhecido. Porém, não a identifico de imediato. Ela se dirige a mim chamando-me pelo nome. Me esforço, tento lembrar quem de fato é. Em vão. Até que ela me pergunta algo específico sobre o meu trabalho. À minha resposta, ela, aparentemente compreendendo que eu não a reconheço, diz: sou a mãe de Camila. Acrescenta que ela é, agora, uma profissional bem sucedida da cultura. É iluminadora, além de produtora de um grupo musical, cujo trabalho resulta em sons e ritmos extraídos do próprio corpo. Nos despedimos, desejando-nos saúde e paz. Vou embora feliz. O sorriso e o brilho nos olhos de Camila, então uma menina, compõem o cenário de minhas lembranças. Há 24 anos atrás, idealizei a Mostra de Teatro Estudantil de Salto, coordenador que era do Teatro Municipal Giuseppe Verdi. O projeto, entre outras coisas, pretendia mostrar às crianças e jovens participantes que Teatro não é somente atuar. Que Teatro não precisa somente de atores. Que é possível também ser tão talentoso quanto necessário exercendo dramaturgia, direção, assistência, cenografia, iluminação, sonorização, produção etc. Um conceito difícil de se fazer entender. A esmagadora maioria entrava para as oficinas sonhando e desejando ser ator ou atriz. Camila, o tempo mostrou, entendeu o conceito. Que bom. Bom sinal. Ao menos, achei.
Escrito por Marcos Pardim às 12h08
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A RESPOSTA DA CARTA ABAIXO OU UM ATÉ BREVE
Publico abaixo a sequência da Série Jogo de Cartas Trocadas e Violadas, versão Teresa para João. Com esse post dou por encerrado, ao menos por aqui, o ano da graça de 2009 d.C.. Aos caros e queridos amigos leitores que me concedem um pouco de sua atenção, agradeço por isso, desejo um ótimo Natal e até outro dia, quando certamente a folhinha pendurada na parede sinalizará que já será 2010. João, caríssimo e amado: Desta feita, como percebeste, demorei um pouco mais do que o normal - talvez até mais do que eu mesma assim desejasse ou receasse -, em responder-te. É chegada a hora, então, após muito refletir sobre com quais palavras me expressar, temerosa de que me tomes por herética. Antecipadamente, meu belo e querido João, peço-te: não assustes com o que lerás aqui. Quero que creias: é candente o sentimento pelo qual sou tomada e impelida a escrever-te, tal qual passo a fazê-lo a partir de agora, em jorro de paixão, tanto mais do que em escorrer lento de amor. A um homem, João - e aqui me refiro especialmente ao que chamas de "misterioso e feminino jeito" -, temo que reste única e tão somente o óbvio, o mais comezinho de sua prática ou exercício: amar a mulher. Beijar-lhe os pés, lambê-la em suas coxas, roçar-lhe a língua no entorno das virilhas, acariciá-la em teus cabelos. Beijá-la na parte de trás de seu pescoço e nuca, apalpar-lhe firmemente, desejando-a até o limite do indesejável. É preciso, João, permiti-la ao gozo, deliciando-se com o seu (dela) prazer, ouvir todos os sussurros e gemidos que o amor de uma mulher é capaz de produzir. Tudo assim, simples e prosaico, muito embora amar seja mesmo complexo. Um sentimento onde podem se imiscuir contradições, imprecisões românticas, tanto quanto deve ser para nós, mulheres, sermos amadas - óbvia, objetiva e masculinamente amadas. Despeço-me de ti desejosa de que o que digo aqui não te firas nem te apequenes. Amo-te, igualmente contraditória e imprecisa. Beijo. Teresa.
Escrito por Marcos Pardim às 11h00
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DA SÉRIE JOGO DE CARTAS TROCADAS E VIOLADAS
Teresa, Tenho andado silencioso, pensativo. Sobretudo, ando refletindo sobre minhas inabilidades sentimentais, que por vezes imagino seja não somente minha, mas da maioria de nós, homens. Penso em você, querida Teresa, em todos os momentos. O que há de ser de mim, me pergunto, transferindo-lhe a possibilidade de resposta, se resposta houver em ti. O que há de ser de mim, amada Teresa, se minhas retinas trazem grudadas os teus olhos, e meu olhar tão perdido está que sequer um palmo à frente têm-me sido possível fitar, que não seja você. De tão e tal maneira que, nem que querendo pudesse, dissimular poderia. E nem mentir me seria dado intentar, quanto mais omitir, aquietar-me, se meu olhar não permite, tão sulcado, vincado e marcado tem andado, deixando transparecências em tudo aquilo que desejável fosse manter-se, mantendo-me, em secreto segredo. Como se obliquar a dor desse meu-seu-nosso amor devesse ser o melhor jeito dele sobreviver, sobrevivendo-nos. O que, Teresa, resta de mim, quando não sei, e parece ser impossível saber, quase nada desse misterioso e feminino modo seu de ser e me ter. Perdoe-me, minha amada confidente, por essas letras trêmulas, cambaleantes. Creia: amar-te tem sido uma viagem sem bússola, navegante solitário e sem rumo que sou. Beijo-te. João.
Escrito por Marcos Pardim às 19h09
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HOJE
de menino, gosto da nostalgia: dos cheiros; da ilusória dimensão de grandeza das coisas e das pessoas; do heroismo diário em ludibriar a morte, sempre ali, à espreita; do medo danado das estórias de terror; do jeito desbragado, tímido e não correspondido de gostar de valéria; de vlamar; de silvana; de suzel; de vânia; e de elizete mais do que nostalgia, sinto falta de meu sono de menino; de despertar amanhã descansado do ontem queria tanto acordar uma manhã com os olhos inchados de minhas manhãs de menino.
Escrito por Marcos Pardim às 20h54
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ENTREVISTA
Concedi uma longa entrevista para a jornalista Ana Lúcia B. Guarnieri. Na íntegra, segue abaixo o que foi publicado hoje, na página 2 do Jornal de Quarta. JQ – Há quanto tempo o senhor tem envolvimento com a cultura? Marcos – Profissionalmente, há 25 anos. Por diletantismo ou sinalização do destino inexorável, desde a infância, quando descobri a poesia. Ela e posteriormente a literatura acabaram por moldar toda a forma de eu enxergar a vida e de me enxergar nela. JQ – De que forma passou a se interessar? Marcos – Como quase tudo que me acontece, sempre houve (e há) pessoas com generosidade suficiente para ver em mim capacidades que eu, sozinho, jamais seria capaz de saber tê-las. Quando estudava psicologia, na UNESP, deparei com pessoas, militantes políticos e culturais que comungavam uma experiência de associação (hoje disseminada como ONGs) chamada Artistas&Arteiros. Na condição óbvia de arteiro, me aproximei deles. Generosos que eram, viram em mim condições de gestão e de idealização de projetos e programas. Algumas dessas pessoas, sobretudo César Peixoto e Caio Leirini, tomei como meus primeiros mestres. Eles acabaram protagonistas de uma experiência muito profícua de política pública cultural estadual, que se deu na gestão do escritor Fernando Moraes na Secretaria de Estado da Cultura, na segunda metade dos anos 1980. As oficinas culturais, a partir da disseminação delas pela capital, ganharam boa parte do interior e trouxeram alento aos verdadeiros fazedores de cultura, tirando do Estado a tendência suicida de assumi-la para si. Assim se deu a minha iniciação: a partir de um programa, da crença inquebrantável na cultura e de pessoas bacanas, dispostas a compartilhar desejos, sonhos e saberes. E, passados 25 anos, resguardadas as devidas adequações contextuais, é assim que ainda procuro pautar a minha conduta individual e coletiva. JQ – Como surgiu a ideia de inscrever Salto na disputa para tornar-se Ponto de Cultura? Marcos – Na verdade, neste edital de Pontos de Cultura do estado de São Paulo, as inscrições não foram feitas por cidades. Foram, sim, por grupos e/ou entidades culturais. E foi aberto, atendendo a um processo democrático onde toda e qualquer manifestação cultural, de qualquer um dos mais de seiscentos municípios do estado, pudesse concorrer. JQ – Como foi todo o processo? Marcos – No meu caso particular, como coordeno um Ponto de Cultura – a FASAM, Ponto de Cultura Para Todos os Especiais, de Itu - e participo ativamente do processo de gestão compartilhada do programa Cultura Viva do Ministério da Cultura, batalhei e consegui trazer para a nossa região uma oficina de capacitação, que ocorreu na sede da FASAM, para que as entidades interessadas em concorrer no edital dos Pontos pudessem ter acesso aos formalismos e às dicas de preenchimento do edital. Independente disso houve grupos e entidades que optaram por não fazer a oficina e mesmo assim acreditaram na força de seus projetos e na capacidade de seus membros e que acabaram enviando os seus projetos. Vale ressaltar aqui uma verdade que nem sempre é compreendida e aceita por artistas e fazedores de cultura: nosso país é riquíssimo em bem fazer cultura. O que acaba diferenciando bastante um ótimo projeto de um outro excepcional são detalhes burocráticos exigidos e que nem sempre merecem de nós a devida atenção. Sei, e lamento muito por isso, de vários e talentosos projetos que ficaram pelo meio do caminho exatamente por não atenderem às exigências documentais e técnicas deste ou de outros editais públicos de cultura. JQ – Como foram feitas as escolhas? Marcos – Não houve processo municipal seletivo algum, quer seja feito pelo poder público ou por algum órgão ligado à sociedade civil. Inscreveu-se quem quis. No caso de Salto, quatro projetos se inscreveram: Anselminhos, Pagadores de Promessas, da @FIM; Ponto de Cultura Corporação Musical Barros Júnior; Corpo de Bale da Cidade de Salto; e Festival de Música da rádio Amiga FM. JQ – O senhor pode nos contar um pouco sobre cada um? Marcos – Como sou redator do projeto Anselminhos, me sinto mais à vontade para falar dele. No caso dos outros dois contemplados, um deles: a Corporação Musical Barros Júnior, possui 131 anos de existência. Receio ser desnecessário tecer qualquer tipo de comentário, mas em todo caso imagino que melhor seria o maestro Silmar de Oliveira ou sua mãe Haydée discorrerem sobre ele. No caso do Corpo de Baile, também se trata de uma entidade que já vai para 20 anos de aprendizado e luta, com um trabalho cultural e social consolidado e que, a partir de agora, imagino possa ganhar um novo alento para prosseguir a sua caminhada, o seu processo cultural. O projeto da @AFIM faz parte de m programa mais amplo, chamado PRUMOS, que é uma parceria que também engloba a Faculdade de Comunicação e Artes do CEUNSP e a Secretaria da Educação. Esse projeto prevê uma série de ações sócio-educacionais e culturais, e os Anselminhos se enquadram na área do audiovisual. A partir da vida e da obra de Anselmo Duarte, uma quantidade de alunos do EJA do Santa Cruz trabalha curtas, médias e um longa-metragem, onde eles próprios são protagonistas de todo o processo, desde roteiro até edição, passando pela possibilidade e aprendizado de formação de uma produtora de vídeos, quer seja para a arte do cinema ou para o exercício de mídias. Embora o projeto defina isso como possibilidade e não como meta definitiva, seria maravilhoso se, ao final dos 3 anos do convênio, além de podermos renová-lo, alguns dos participantes pudessem ter a autonomia profissional da criação de suas próprias ferramentas de sustento. JQ – O que significam pra Salto os três Pontos de Cultura? Marcos – Sob meu ponto de vista, significam muito. Reafirmam o talento natural da cidade para com a cultura e sinalizam um caminho que me parece dos mais animadores, o de que o Fórum Permanente de Cultura não pode arrefecer e deve ser, a partir dele, que a sociedade vai construindo mais firmemente a sua rede de talentos, necessidades, demandas e se fortalecendo enquanto sujeito político de sua ação. JQ – Quais serão os benefícios que trarão para a cidade? Marcos – Para quem, como eu, possui poucas habilidades, futurologia não é nem de longe uma delas. Mas eu não me furto em deixar aqui, mais um desejo do que uma visão clara de futuro: a vontade de que a cidade não perca a possibilidade de trazer a cultura para o centro de nossas necessidades e direitos básicos. Sonho, sobretudo pelos meus filhos, eles sim saltenses legítimos, com a implantação de um programa de política pública que fuja “que nem o diabo foge da cruz” desta cultura do evento e mergulhe de cabeça na cultura enquanto processo continuado, com um Conselho Municipal de Cultura forte e atuante, com um programa de criação, fomento e democratização de um Fundo Municipal de Cultura, e como já disse anteriormente com a sociedade valorizando e priorizando o Fórum Permanente como o espaço mais adequado, justo e democrático de encaminhamento e sinalização de propostas e possíveis alterações de rotas.
Escrito por Marcos Pardim às 14h08
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ENTREVISTA (PARTE 2)
JQ – E para a cidade de Itu, em especial a Fasam, por agora ter se tornado um “Pontão de Cultura”? Marcos - A FASAM já é ponto há quase 2 anos e tem se notabilizado pela sua firme adesão ao programa Cultura Viva e intensa participação política na brecha criada pelo próprio programa de gestão compartilhada. Temos procurado participar de quase tudo que o programa convoca ou instiga e isso tem se traduzido em várias vitórias em vários editais. Um deles, o de Pontão de Cultura. Como o critério de seleção é muito mais rigoroso e exige da entidade uma capacidade de articulação em rede com diversos outros Pontos, e ainda por cima por se tratar de um tema difícil que é a inclusão e a diversidade da deficiência, essa é mesmo uma conquista gigantesca. Mas, infelizmente, ao contrário do que percebo em Salto, onde o processo tem se mostrado forte coletivamente, em Itu vejo a FASAM sendo obrigada a “soltar rojões e a brindar” suas conquistas solitariamente. O processo de Fórum e de Conselho Municipal de Cultura vivido recentemente em Itu foi, e tem sido, bastante doloroso e triste. O que não nos tira o ânimo de continuar a luta, mas é sim motivo de pesar e de lamento. JQ – Como foi para o senhor e para os integrantes das outras instituições, quando receberam a notícia que os projetos tinham sido selecionados? Marcos – Havia uma imensa expectativa, é lógico. Assim como também havia uma quase certeza de que, por critérios de regionalização e territorialidade, era provável que somente 1 projeto fosse aprovado. Termos tido 3, num universo de quase 1200, oriundos de cerca de 250 municípios, decerto que nos causou espanto, alegria e orgulho. JQ – O senhor tem outro projeto que envolve cultura? Marcos – Vivo de projetos e por isso rabisco continuamente um ou outro. Que bom que, nestas horas, existam uma mão para amassá-los e uma lixeira para recebê-los. Alguns deles acabam se concretizando e eu tenho carinho por todos eles. Mas é inegável que um deles, em especial, chamado Parceiros da Cultura, implantado em 1999 na cidade de Santa Bárbara d’Oeste, foi o que me tornou mais respeitado no meio cultural, já que serviu de modelo para que o MinC o adotasse e fizesse constar nos princípios da Lei Rouanet, propiciando às empresas investirem não somente na produção dos projetos, mas também depois de produzidos, adquirindo ingressos e outros meios finais dos produtos culturais diversos. E o curioso é que comecei a escrever este projeto em 1984, com outro nome é claro, dei corpo a ele quando era diretor do Teatro Verdi, não consegui encontrar condições de implantá-lo, felizmente o guardei e somente 15 anos após o começo de sua ideia é que consegui vê-lo concretizado. Isso reforça ainda mais a minha crença de que cultura é processo, é um contínuo e diário esforço, água “imparável” de um rio. JQ – Qual a opinião do senhor sobre a cultura saltense? Marcos – Ricamente talentosa e muito provavelmente também rica em diversidade. No mais, creio que muito do que já disse em perguntas anteriores demonstra o que penso sobre nós. JQ – Em sua opinião, os investimentos na cultura são suficientes em Salto? Por quê? Marcos – Não. E não se trata de um problema local. Tanto que dois projetos que tramitam no Congresso Nacional tratam exatamente dessa questão. Um deles, a PEC 150, prevê dotação orçamentária específica para a cultura: 2% Federal, 1,5% estadual e 1% municipal (note que se trata de verba específica para a cultura e não para ser gasta com turismo, educação ou esporte que em muitas cidades são ações conjuntas de uma mesma pasta). O outro diz respeito à mudança da Lei Rouanet. É fundamental para o processo atual de valorização da cultura que o esmagador fomento cultural saia das mãos de diretores de marketing empresariais e seja conduzido por fundos setoriais de cultura geridos também pela sociedade civil. É primordial que empresas locais e regionais, se quiserem continuar utilizando-se dos incentivos fiscais da lei, sejam estimuladas a contribuírem com a cultura local e regional, e não mais movidas exclusivamente pelo marketing desavergonhado e descarado que temos hoje em dia. Eu pergunto: é justo que paguemos todos pelo marketing personalizado de qualquer empresa, seja ela estatal ou privada? JQ – Qual dica o senhor daria para as pessoas passarem a se interessar pela cultura do município? Marcos – Conscientes ou não, todos nós somos seres culturais. E o interesse, até pelo direito óbvio da individualidade, deve mesmo ser variável. Esperançosamente, acredito que as pessoas possam compreender a força da cultura, da educação e da cidadania no processo de depuração social, notadamente na imprescindível mudança na forma de relacionamento poder público e sociedade civil. É preciso, sim, sermos mais éticos e estéticos em nossa relação com nós mesmos, com o outro e com a coletividade. Até mesmo para que o tripé se complete com a economia, que certamente não podemos seguir na forma e no conteúdo atual.
Escrito por Marcos Pardim às 14h02
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FILOSOFIA ORDINARIAMENTE BARATA
felicidade não é - ou não deveria ser - um bem em si. ou em nós. felicidade é possibilidade. intenção. busca. procura. motivo. força-motriz. felicidade é inalcansável, muito embora avassaladoramente necessária. imprescindível. felicidade não existe para o aqui. para o agora. e não há nada de triste nisso. *** da série palavras um dia agrupadas e esquecidas no desmaio do tempo (e para não dizer que não falei do tempo, ontem, dia 18/11, essa quitanda virtual completou 4 anos de portas abertas).
Escrito por Marcos Pardim às 09h38
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HABEMUS PONTO(s)
Um dia, faz bem pouco tempo, em uma reunião da ASLe (Academia Saltense de Letras), a diretora de cultura, Vânia Barcella, fazia-se presente. Entremeado a um comentário que fazia aos outros membros, sobre Conselhos Municipais de Cultura, perguntei a ela se havia (ou não) na secretaria da Cultura a ideia de criação de um deles. Ela me respondeu que não sabia existir, mas acreditava que não. Carolina Padreca, a mais jovem das ocupantes de uma cadeira da Academia, olhou-nos e disse: “Até que enfim, alguém pra tocar nesse assunto. Demorou...” Alguns dias depois, tomei a iniciativa de telefonar para Carolina. Propus à ela a ideia de um encontro de artistas, arteiros, fazedores, sabedores e consumidores de Cultura, para tratarmos de alguns assuntos, dentre eles um possível movimento para criação do Conselho Municipal de Cultura. Carolina topou. Agendamos uma data e local, e dividimos (desigualmente, é bom dizer, pois ela ficou com uma lista maior do que a minha) a tarefa de convidar algumas poucas pessoas, em princípio. Daí, para a criação do Fórum Permanente de Cultura foi um pulo. Tudo muito espantosa e gratificantemente rápido. Ao grupo, originariamente restrito, foram chegando novos atores, novos personagens, novas vozes, novas ideias, novos sonhos, novas esperanças - e, para não haver dúvidas, velhos problemas. Tem nada, não. Protagonismo e autonomia só se dão mesmo com empoderamento. E a vida segue seu rumo, alheia a nós. Se bobearmos, outros se empoderam. E nem sempre com os princípios e valores humanos do protagonismo e da autonomia. Viver é perigoso, já disse um dia Guimarães Rosa. A partir do Fórum, foi possível, sem perder o foco das dificuldades, tratar de alguns assuntos imprescindíveis para uma boa gestão de política pública cultural: o edital aberto para novos Pontos de Cultura; a realização da I Conferência Municipal de Cultura, o movimento pela criação do Conselho Municipal de Cultura (cujo lançamento oficial se deu na Conferência, e lugar melhor e mais emblemático não poderia haver), etc. E os frutos desta árvore ainda tão pequena de nossa luta eterna já começaram a aparecer. Nosso Fórum tem motivo hoje para celebrar, comemorar, brindar: habemus Pontos. Hoje, dia 16 de novembro de 2009, Salto foi contemplada com a habilitação de três Pontos de Cultura. Os projetos Ponto de Cultura Corporação Musical Barros Júnior, Anselminhos, Pagadores de Promessa e Corpo de Baile Cidade de Salto, entre mais de 1200 de todo o Estado, estão na lista dos 300 escolhidos pela comissão julgadora e se juntam aos já 175 outros existentes, para fazer parte da Rede Estadual dos Pontos de Cultura. Para que o motivo de nos alegrarmos seja ainda mais contundente e regionalizado, a FASAM – Ponto de Cultura Para Todos os Especiais, de Itu, ganhou também o edital de Pontões de Cultura, e a vizinha cidade passou a contar com mais um Ponto de Cultura: a UNEI (União Negra Ituana), cujo trabalho é mesmo elogiável e seus representantes, pessoas valiosas, além do que Indaiatuba também teve o projeto Bolha de Sabão contemplado e prevê para 2010 a implementação de sua Rede de Pontos de Cultura, formada por mais cinco Pontos. Uma conquista e tanto, decerto. E que deve mesmo ser celebrada, sem no entanto perdermos de vista que, em verdade, ela é a senha que dá acesso para que Salto e região entremos definitivamente no conceito do programa Cultura Viva. Um programa exemplar de política pública cultural. Ele existe somente há cinco anos, mas já apresenta resultados extraordinários. O livro do secretário de Cidadania Cultural, Célio Turino, chamado Pontos de Cultura – O Brasil de Baixo pra Cima, lançado oficialmente no último dia 11/11, faz-se leitura obrigatória para quem se pretende protagonista cultural. A Cultura, já cantou Jorge Mautner, é a melhor e mais generosa maneira de se praticar a desobediência civil. Habemus Pontos, saltenses. Como analogia ao título, imaginei as chaminés de algumas indústrias saltenses dos anos 50/60/70 soltando fumaças, em uma espécie de anunciação vaticana. Não há mais este tempo. Sequer há a maioria destas fábricas, conseqüentemente as suas chaminés. Não tem importância. A gente inventa. Nós somos mesmo um povo culturalmente bem capaz de inventar. O que quisermos – até um país diferente, quiçá melhor. Para isso, antes, é preciso um bairro diferente, uma cidade diferente, um Estado diferente. Antes, ainda, um Eu diferente. Quiçá, melhores. @FIM, Corporação Musical Barros Júnior e Corpo de Baile, entidades proponentes dos projetos premiados, devem se congraçar ao outro projeto saltense que também concorreu: Festival de Música Amiga FM. Não é, certamente, um edital que transforma qualquer entidade ou programa em um Ponto de Cultura. Somos nós mesmos. Nossas escolhas e nossas ações. Vocês da Amiga FM, batam no peito e digam: somos, sim, Ponto de Cultura. Repito: habemus Pontos. Agora, que venham Conselho Municipal de Cultura, Fundo Municipal de Cultura, democratização de acesso e de fomento ao Fundo e, quem sabe um dia Salto, quem sabe um dia, a nossa Rede Municipal de Pontos de Cultura e a Escola de Cultura, Artes e Cidadania Anselmo Duarte. A fumaça imaginária de nossa chaminé inexistente anuncia a boa nova: habemus Pontos.
Escrito por Marcos Pardim às 17h59
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CONTANDO HISTÓRIA (CONT. DO POST ANTERIOR)
No local e hora combinados, cheguei. Anselmo Duarte já estava e antes mesmo que eu comentasse qualquer coisa sobre isso, foi logo sugerindo que a entrevista mudasse para outro local: um bar, para onde nos dirigimos. Lá, por cerca de quatro horas, conversamos. E bebemos, também. Não muito, mas o suficiente para manter a conversa num nível mais informal. Eu era editor de uma revista mensal de Cultura. Sob minha responsabilidade tinha um Ensaio na última página e o Perfil, o qual preenchia as duas páginas centrais. O daquele mês era com o cineasta, que havia algum tempo estava de volta à cidade natal. E Anselmo falou. Muito. Contou coisas, casos, "causos". Histórias e estórias. Enfim, foi Anselmo Duarte em seu melhor personagem de si mesmo. A cidade acabara de lhe conceder mais uma homenagem, inaugurando um Cineclube e dando a ele o seu nome. Discorreu sobre isso também. Elogiou algumas coisas e criticou outras. Foi duro, sobretudo, com relação a algumas falhas que julgara terem sido cometidas quanto à algumas conquistas para o Cineclube por meio do Consulado do Canadá. Isso o havia deixado muito chateado. Como o Cineclube em si não era o tema da entrevista, resolvi não me aprofundar nisso. Em determinados momentos, tal o grau de informalidade, perguntei a Anselmo se aquilo que dizia era uma conversa em off ou se poderia usar na matéria. Pouquíssimas coisas recomendou ser necessário mantê-las entre nós, como conversas de bar. Ao editar a matéria, por óbvia carência de espaço, tal a profusão do material coletado, optei por deixar de fora algumas das críticas, quer fossem elas mais específicas à Cultura ou à vida em geral. Alguns dias após a revista ter saído, por intermédio de um amigo, recebi uma carta de Anselmo Duarte. Uma carta extensa e escrita de próprio punho. Nela, Anselmo fazia reparos à matéria. Dizia que eu havia cometido algumas inverdades, escrito coisas que ele não falara ou, ao menos, teria sido mal interpretado. Em alguns trechos, em verdade, ele era bastante duro nas considerações, dizendo que não esperava aquilo de mim. Fiquei sem saber se a carta era particular ou se endereçada à revista. Procurei por Anselmo. Ele riu muito. Desconversou, contou mais histórias e me disse para não dar importância à carta. Ela era apenas uma espécie de tentativa de amenizar um pouco o mal-estar causado com algumas de suas críticas, notadamente na prefeitura e na Secretaria da Cultura. Retruquei, dizendo, em minha defesa, que não havia feito aquilo que a carta dizia eu ter feito - e ele sabia disso muito bem. Esquece, releva, respondeu-me Anselmo. E me levou à uma pastelaria, cujos pastéis ele muito apreciava. E eram mesmo muito bons. Dias depois, fiquei sabendo que as critícas de Anselmo não ficaram restritas à carta. Novamente o procurei. E fiz ver a ele a importância de torná-la pública, para meu próprio bem e da revista para a qual trabalhava. Anselmo discordou. Pediu que eu não a publicasse. Insistiu que, por vezes, alguns "jogos de cena" são necessários, mas que não passavam de problemas menores. Discordei. Publiquei a carta, na íntegra. Embaixo, um P.S. esclarecia que, muito embora, o entrevistado fosse merecedor de toda a minha reverência, minha admiração e meu respeito, o editor mantinha, por convicção e exercício ético da profissão, tudo aquilo escrito anteriormente. Nenhuma ilação fiz, em meu P.S., ao que ele havia me dito posteriormente ao envio da carta. Se assim o fizesse, imaginei, aí sim seria leviano ou mau profisssional. Por algum tempo, Anselmo me evitou nas poucas vezes em que nos encontramos. Aqui ou ali ouvia um comentário ou outro, que diziam ele havia feito. Um dia, alguns anos depois, em um churrasco na casa de um amigo em comum, sentado em uma mesa que não a dele, recebi o recado de que queria falar comigo. Senta aí, ele me disse. E ao casal que nos recepcionava, e que sabiam do ocorrido, ele disse: ele estava certo, agiu como deveria mesmo ter agido. Apenas sorri, e perguntei a ele sobre um problema de saúde que soubera ter tido. Não sei se ele não me ouviu, ou se fingiu não ter ouvido. Contou-me mais uma de suas estórias. E depois outra...
Escrito por Marcos Pardim às 21h20
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CONTANDO HISTÓRIA (EM MEMÓRIA A UM GRANDE CONTADOR DELAS)
O enredo é por demais conhecido: morre uma pessoa famosa, e o que mais se ouve ou se lê são depoimentos que exaltam as tantas e valiosas virtudes demonstradas em vida – muitas delas, sejamos sinceros e honestos, em verdade, inventadas ou superdimensionadas. Tive, e tenho, poucos ídolos. Todos falíveis e dados a um ou outro deslize, graças a Deus. A respeito disso, gosto de me lembrar de uma passagem contada por um amigo já falecido: o escritor Caio Fernando Abreu. Em final dos anos 1980, começo dos 1990, o cineasta Guilherme de Almeida Prado acalentou o projeto de filmar o romance Onde Andará Dulce Veiga? Regina Duarte havia sido convidada a viver na telona a personagem que dá título à obra de Caio F. Abreu. O escritor, declaradamente fã de Caetano Veloso, sugeriu convidá-lo a compor a trilha sonora do filme. Caetano Veloso fazia temporada de shows. Escritor, cineasta e atriz foram assisti-lo e se dirigiram ao camarim do cantor, a pretexto de efetivar o convite. Caio me contaria depois o tamanho de sua decepção, de seu desencanto e sua tristeza com o ídolo – para negar-se ao convite, Caetano fora desrespeitoso e grosseiro. Decerto que a desilusão não era pela negativa em si, mas pela forma como ela havia se dado. “Ídolos, melhor não tê-los. Em tendo-os, melhor não conhecê-los”, me citaria Caio. O que falei ao amigo então, ainda continua valendo como regra de minha conduta. Não me incomodo com as mazelas humanas de meus poucos “mestres” – que é como prefiro denominar meus ídolos. Aliás, isso me faz admirá-los ainda mais. Eu os vejo humanos, erráticos, capazes de mesquinharias e injustiças (quer sejam por gestos ou atitudes), mas ainda assim capazes de criarem coisas tão geniais e imprescindíveis. Não creio na “santidade” humana nem na perfeição – que imagino deva ser, assim como a sabedoria ou a felicidade, algo a ser buscado, sempre, mas sem perder a perspectiva e a certeza de que inatingíveis. Mais uma vez, pensei nestas coisas ontem, por conta da morte de Anselmo Duarte, o mais ilustre dos saltenses. Estive em parte do cerimonial que antecedeu ao seu sepultamento, cerimonial este que se deu no saguão da Sala Palma de Ouro, teatro que faz parte do recém inaugurado complexo do Centro de Educação e Cultura de Salto. Tive a oportunidade de viver, quase à mesma época deste envolvendo meu amigo Caio, um episódio com Anselmo Duarte que me serve ainda mais para contextualizar esta minha maneira de enxergar ídolos e famosos. Em um outro post, para não me alongar neste, contarei o ocorrido. Com a única intenção de homenagem e de respeito a este saltense, nascido em 1920 numa Salto não mais do que um pequeno vilarejo, que foi capaz de se tornar o único brasileiro a ganhar o prêmio maior do Festival de Cannes, na França: a Palma de Ouro. E isto com uma obra genuinamente brasileira: O Pagador de Promessas, adaptação cinematográfica da dramaturgia de Dias Gomes.
Escrito por Marcos Pardim às 11h41
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DE IMAGENS E DE FATOS
Há uma lógica infalível na inevitabilidade. Por conta disso, os fatos se sucedem. E nos são, quase na sua totalidade, indissociáveis da imagem. Basta um simples celular, seja ele pré ou pós. Não obstante, uma tal e infame caneta espiã - todos os dias, ao abrir a internet, ela está lá, em destaque, à mostra e à venda. Ao vê-la e identificá-la sendo usada para os fins que imagino sejam, juro que fico constrangido e penso: meu Deus, a que ponto chegamos? Qualquer um de nós possui a disponibilidade de um click. De uma gravação. A imagem banalizou-se. Penso nos fatos em si mesmos. O que seriam, sem as imagens? Dariam "ibope"? Nos chamariam à atenção? Não nos bastariam enquanto idiossincrasias ou meras circunstâncias humanas, demasiadas e inevitavelmente humanas? Olho algumas das imagens, outras, sei apenas de ouvir contarem. Corpos carbonizados de crianças; helicóptero em chamas, após ter sido abatido em pleno voo; um cadáver "cuidadosamente" arrumado dentro de um carrinho de compras (talvez, o mais expansivo, violento e chocante "toque" do quanto de mercadoria estamos nos deixando tornar); a foto de um moço reluzindo-se em um clarão que explode em seu rosto, cuja história nem preciso ler para saber a desgraceira que é; as pernas de fora da moça na faculdade, que desencadearam um linchamento moral e quase a tragédia de um físico... Sei não, mas acho que vou ficar quieto aqui mesmo, ouvindo os arranjos simples e a voz doce de Maria Gadú cantando Tudo Diferente. Que, provavelmente, querem me "dizer" alguma coisa.
Escrito por Marcos Pardim às 11h04
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